terça-feira, 23 de março de 2010

O meu sonho

Eu tive um sonho. E o sonho era um stop motion feito com pinturas. Por todos os cantos tocava música de Belle & Sebastian. Tudo parecia um quadro, mas as coisas se mexiam. O céu era cor de baunilha. Da cor dos céus de Monet. Não dava pra saber se era dia ou noite, mas havia nuvens espalhadas, com várias formas. Algumas pareciam coelhos, outras pareciam carros e muitas pareciam Deus.

As pessoas eram exatamente iguais às pintadas por Botero. Gordas, alegres, voluptuosas e muito bonitas. Andavam pelas ruas com uma leveza única, e falavam de uma maneira bitnick, como os diálogos de Bukowski, cínicas, debochadas e extremamente interessantes.

Eu estava sentado na areia da praia de Ipanema. Era, também, um personagem dos quadros de Botero. Ao meu lado, tinha uma garrafa de whisky, o cão engarrafado. Eu era Vinícius de Moraes, mas me chamava Nicanor. O mar tinha cheiro de saudade e eu ficava observando uma garota passar com os pés na água, de tatuagem no braço e sabia, com uma certeza mais que absoluta, que ela era a minha garota de Ipanema. Ela também tinha saído de um Botero e usava um vestido branco de seda, que dançava conforme o vento batia. Lá no fundo, um golfinho amarelo pulava nas águas e fazia acrobacias. Todas as vezes que ele emergia, eu ouvia uma banda tocar. Diferente do céu de baunilha dos outros lugares, logo acima de mim uma moça dançava entre as estrelas. Era uma bailarina, com roupas de bailarina, fazendo coreografia de bailarina. Mas o que tocava era Belle & Sebastian, valsas e o Bolero de Ravel.

Eu estava triste porque, apesar de estar ali, três Chico-Buarques andavam pela rua perguntando por onde eu andava e lembravam que eu tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Tomava o whisky na boca da garrafa e esperava que a garota de Ipanema viesse ao meu encontro, mas o que ela fazia era só andar, molhando os pés no mar. Quando meu desespero se tornou insuportável, fui transportado para um caminho. Uma estrada de terra batida. Nas duas laterais, ipês roxos carregados chacoalhavam com o vento. Eu estava de mãos dados com alguém que não sei quem é e não sentia mais nada ruim. Nem dor, nem medo, nem saudade, nem tristeza. Vestido com um terno de linho azul marinho, com uma rosa vermelha na lapela, eu caminhava na estrada, de mãos dadas com a desconhecida e tinha dentro de mim uma alegria, uma quentura inimaginável. No fim da estrada, jazia um arco-íris que começava num cristal gigante.

Eu tive um sonho. E ele descrevia o mundo perfeito. Acordei com um gosto de fel na boca. Abri a janela e chequei o céu. Não era mais de baunilha. E não tinha mais bailarina. Era cinza, escuro, feio e opressor. Eu não era mais o Vinícius de Moraes. Nem me chamava Nicanor. Tirei a areia dos pés, dobrei o vestido branco que dançava enquanto o vento batia no varal, tomei água na boca da garrafa e fui trabalhar ouvindo música incidental.

domingo, 21 de março de 2010

Inesquecível


Na primeira vez que ela apareceu pra mim, achei que era um sonho. Afinal, que tipo de espírito aparece do além pra te lembrar de colocar as roupas no varal? Ou de tirá-las, antes da chuva? Além disso, era tarde da noite, eu tinha algumas doses de scotch na mente e estava naquele limbo característico que fica entre o sono e o despertar. Num daqueles momentos em que estamos acordados demais para nos saber dormindo e dormindo demais para nos saber acordados.

“Não esquenta. Se um dia eu morrer, olharei por você. Serei seu anjo. Voltarei na forma de uma borboleta, pra colorir os seus dias”, ela dizia. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, tudo aconteceu conforme o planejado. Lembrei de colocar as roupas no varal, tomei o café da manhã dos campeões – uma xícara grande, nicotina – e fui trabalhar.

Nunca fui uma pessoa de espíritos, e no caminho de volta pra casa, pensava que aquilo era
besteira; uma daquelas saudades bobas que sentimos de alguém que se foi e não voltará nunca mais. Tudo estava do mesmo jeito que deixei ao sair, tirando uma pequena tropa de formigas, que se amontoava na tampa do açucareiro descuidadamente esquecido sobre a mesa. “Bom, ela me disse pra não esquecer das roupas do varal. Não havia nada, na resolução, sobre o açucareiro”, pensei.

O problema é que lembranças e saudades bobas, por mais bobas que sejam, nos angustiam. E eu bem me lembro dela me esperando chegar do trabalho com um bom jazz tocando no rádio, espalhando seu perfume de lavanda por toda a casa. Jantávamos ao som de Billie Holyday, Miles Davis e, às vezes, dançavamos no carpete da sala, de rosto colado, depois da ceia, ao som de Coltrane. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, jantei comida congelada e tomei o vinho preferido dela – um cabernet sauvignon chileno – ao som de Unforgettable, do Nat King cole. Como todos sabem, uma garrafa de vinho pode embriagar uma pessoa, e eu dormi estirado no sofá com o som ligado e a roupa no varal.

No meio da noite, olhei para a janela da sala, aberta, e a cortina balançava suavemente. Tinha um cheiro de lavanda no ar. Também tinha barulho de chuva lá fora. Mas era um daqueles momentos em que estamos bêbados demais para discernir fatos da realidade. E eu sinceramente não sei se foi um sonho, porque o CD já tinha acabado há muito, mas era Unforgettable que tocava enquanto a cortina balançava, a chuva caia e o cheiro de lavanda invadia a casa. E esse foi o segundo dia em que ela apareceu pra mim.

No segundo dia em que ela apareceu pra mim, não disse nada. Apenas flutuava na sala, sobre o carpete, balançando suavemente ao som de Nat King Cole. “Unforgettable, that’s what you are...”, e ela sorria. “Unforgettable, though near or far...”, e ela rodopiava. “Unforgettable, in every way. And forever more, that’s how you’ll stay...”, a cortina balançava, a chuva caia e a brisa com cheiro de lavanda mexia seu vestido branco.

Acordei com a cabeça pesada, por causa do vinho. Banho. Café da manhã dos campeões. Uma xícara grande e nicotina. A janela da sala estava fechada e as roupas do varal, secas. Na segunda vez em que ela apareceu pra mim, eu estava bêbado. E eu vi coisas que não aconteceram. Saí de casa com pressa, atrasado. Na volta, refutei qualquer possibilidade dela ter aparecido pra mim. Não havia nada de concreto, e eu já estava cansado de ouvir Nat King Cole.

Chegando em casa, percebi que as roupas não estavam mais no varal. E percebi, também, que a janela estava aberta e a cortina balançava lá dentro. Um som abafado, baixo, vinha da casa. Meu coração disparou, os olhos encheram de lágrima. Abri a porta, trêmulo. Era Unforgettable que estava tocando. Uma tropa de formigas se amontoava na tampa do açucareiro e, na corrente de ar, que passava pela sala, vinha um leve perfume de lavanda. Eram as roupas, dobradas no sofá, que exalavam o cheiro. O céu estava claro e o sol de verão ainda brilhava.

Corri pro banheiro, fugindo de algo inevitável. Olhei no espelho. Só podia ser um sonho. Ví uma cara judiada, com a barba mal feita. Os olhos fundos, olheiras negras. Lavei o rosto e saí. E o mundo caiu em uma tempestade torrencial quando eu coloquei o pé pra fora. Entrei no carro, ensopado. Parei numa banca de flores, comprei um maço de rosas vermelhas com lavandas roxas. No caminho pro cemitério, a chuva forte, o sinal fechado. Eu não vi como aconteceu a batida. Lembro de ter capotado algumas vezes e sentir o sangue na boca. O vermelho das rosas, misturado com o roxo da lavanda, jazia a menos de dois centímetros do meu rosto.

A chuva parou, o sol abriu e uma brisa refrescante bateu. Uma borboleta pousou em cima do arranjo. O locutor da rádio anunciou a música que estava começando. Era Unforgettable, do Nat King Cole. Respirei fundo o perfume de lavanda, senti a brisa batendo e sorri para a borboleta. E essa foi a terceira vez que ela apareceu pra mim.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Comprimidos e conhaque*

- Nome?
- Malu.
- Malu de quê? Quero o nome completo.
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.
- Como assim, “puta”?
- Puta! Vendo meu corpo por dinheiro. Faço sexo com homens para garantir meu sustento.

Já era noite quando Malu saiu da delegacia. Aquele dia não lhe renderia mais nem um tostão. Estava decidida. Nunca mais ia passar uma madrugada naquelas ruas imundas e infernais da cidade. Disputava espaço com travestis violentos, bêbados valentes e metidos a estupradores, jovens ricos e justiceiros e as colegas de profissão, sempre desleais e traiçoeiras.

Lembrar de todas as vezes que foi espancada, queimada por pontas de cigarro acesas e molhada de urina ou outro dejeto deixava Malu triste e desanimada. Nunca fora outra coisa se não objeto sexual. Não teve opção. Só na adolescência, já sozinha no mundo, foi entender que aceitar doces do pai em troca de silêncio enquanto era violentada também podia ser uma forma de prostituição. Seguiu em frente. Rodou boa parte do país em boléias de caminhão, ao lado de homens barrigudos, fedidos e, como seu pai, violentos. Fazia sexo por comida, por dinheiro, por carona ou simplesmente para não ser morta.

Aliás, já considerava morta a parte do seu corpo que servia de escape para aqueles monstros barbudos que encontrava. Não via serventia para aquele buraco. Na cabeça da jovem Malu, servia apenas para excretar seus restos e servir de abrigo para corpos cansados, inseguros e solitários.

Quando chegou na cidade, depois de depender da bondade condicional de desconhecidos, percebeu que sua vida poderia ser diferente. Firmou ponto em uma das ruas do centro e foi dividir um quarto com mais três mulheres da vida. Uma delas, Raíssa, ensinou à Malu a forma mais fácil de sair da realidade. “Um comprimido de Lexotan e um gole de conhaque! Está aqui a sua passagem para o mundo perfeito! O mundo do seu jeito, com a sua cara!”.

Assim que o cruel assassinato de Raíssa apareceu em todos os noticiários, Malu e suas companheiras decidiram mudar o horário de trabalho. Era mais seguro trabalhar à tarde, diziam. Malu agora dividia o espaço com camelôs, vendedores e os transeuntes que lotam aquela região da cidade todos os dias. Sem preocupação com a polícia e com homens violentos, tudo era mais fácil. Seus clientes barbudos foram substituídos por jovens de terno e gravata, igualmente solitários e inseguros e sua vida se resumia em uma única coisa: garantir a cartela de comprimidos e a garrafa de conhaque, seu passaporte para a felicidade.

Nada de ruim existia no caleidoscópio que aquela mistura criava na cabeça de Malu. Lá, onde era realmente livre, podia voar, amar e rir sem medo. Nada lhe custava e a brisa era morna e suave. Seu corpo moreno e esguio não carregava nenhuma cicatriz. O céu era azul, sem nenhuma nuvem. Visitava o mar sempre que queria e descansava sob a sombra de árvores com frutos saborosos. Ali, sim, a vida de Malu era perfeita. Seus cabelos, castanhos e cacheados, caíam sobre os ombros com leveza. Seu sorriso era alvo e brilhante. Sua gargalhada ecoava nos quatro cantos.

Mas nada dura para sempre. Nem o sonho insano que o comprimido causava. Logo, o céu ficava escuro, uma dor insuportável tomava conta de sua espinha e o despertar era amargo, tinha gosto de fel. Malu precisava levantar, aprontar-se para o trabalho e sair na esperança de ter uma tarde agradável, sem precisar responder às perguntas do delegado:

- Nome?
- Malu
- Malu de quê? Quero o nome completo
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.

*Texto postado originalmente no blog do projeto Pândega Literária

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Um segundo

Ana Clara tinha cinco anos. Precoce, conseguia ter uma compreensão incomum das coisas que aconteciam ao seu redor. Era linda e tinha cabelos cacheados, amarelos como o sol. Aprendeu a ler aos três anos. E aos três e meio conseguia ler um livro infantil sozinha antes de dormir. Sua história preferida era a da Chapeuzinho Vermelho. Seus olhos eram azuis, azuizinhos como uma piscina. Duas pedras de água marinha que cintilavam contra a luz. Sempre que lia alguma história, fazia, ali mesmo, na cama, uma análise crítica para a mãe. Assustava às vezes, principalmente quando levantava questões ligadas ao âmago do ser. Coisas que nem sua avó conseguia pensar. Tinha a pele alva e seu corpo esguio parecia que ia se quebrar a cada passo que dava. Gostava de roupas simples, de criança, e sua cor preferida era o vermelho.

Se quando morremos a vida inteira passa na nossa cabeça em um único instante, para Ana Clara esse tempo parecia eterno. Não poderia se arrepender das coisas ruins que fez. Afinal, era muito jovem para ter qualquer maldade no coração. Não poderia lamentar as oportunidades perdidas. Muito menos justificar seus erros.

De que uma menina de cinco anos de idade lembraria em seu último suspiro, então? A Barbie fada que ganhara na semana passada, talvez? Ou quando escreveu o próprio nome no papel pela primeira vez. E a visita ao zoológico? Aquele leão realmente dava a impressão de que a engoliria a cada bocejar!

Escolheu, em sua inocência, em sua ingenuidade sem igual, pensar na bailarina que rodopiava ao som do porta-jóias da mãe. Quando crescesse, queria ser bailarina. Estava decidida, e não pensava em ser outra coisa se não bailarina. Daquelas que rodopiam ao som de porta-jóias. O frio chegava e fazia tremer todos os ossinhos daquele corpo alvo e delicado. O som do porta-jóias titilava em sua mente. E a imagem da bailarina rodopiando graciosamente, como num plié eterno. E o frio, e a música, e os ossinhos, que poderiam se quebrar a cada passo. A boca do leão era tão grande que a engoliria inteira em uma só mordida. Mas e se o leão fosse também bailarino? E se também dançasse graciosamente, como uma bailarina que roda pliés eternos em um porta-jóias?

Entre tantos pliés de bailarinas e leões dançarinos de bocarras imensas, passou-se finalmente o último segundo. E como o som de qualquer porta-jóias não dura para sempre, a canção foi cessando, foi aumentando o frio que fazia tremer todos os ossinhos daquele corpo de porcelana que poderia quebrar a cada passo, foi embaçando a vista do poste de luz, e foram se misturando lágrimas e gotas da chuva fina que caía.

Ana Clara. Cinco anos de idade. Fatalmente precoce. Ingênua e inocente como jamais se vira. Questionava as complexidades do ser humano, mas, durante seus últimos momentos de vida, só conseguia pensar no som do porta-jóias, na bailarina de pliés eternos e no leão de bocarra imensa. A história que mais gostava era a da Chapeuzinho Vermelho. E era vermelha também sua cor predileta. Alva era sua pele, azuis seus olhos brilhantes, amarelo seu cabelo e negra a noite chuvosa em que tudo aconteceu.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2008

A Promessa

Cheguei em casa meio tonto, com um gosto de fel na boca. Uma mistura de cerveja, cidra barata e fumaça de fogos de artifício. Aquilo que causou náuseas; o estômago estava embrulhando. Limpei os pés no tapete - como de costume - e entrei. Tudo era o mesmo.

A casa continuava intacta. A mesma do ano passado. Também, pudera! Fazia apenas algumas horas que tinha saído para curtir a noite de réveillon. Por outro lado era um novo ano. Algo ali precisava mudar. Não na casa em si, na disposição dos móveis ou na cor das paredes. Olhando em volta, sentia um quê de bagunça e era muito difícil discernir se a faxina precisava acontecer dentro ou fora do meu ser.

Não passava de duas da manhã. Alguns fogos retardatários insistiam em estourar nos céus, com persistência e intervalo de tempo irritantes. Enquanto mudava de roupa, notei o quadro no centro de uma das paredes da sala. Nunca o abstracionismo fez tanto sentido para mim. Consegui ver toda a minha infame existência naquele conglomerado de amarelos, vermelhos e cáquis. Cada curva, cada mudança de tom me fez relembrar algo na minha vida.

Cheguei mais perto. O verde me fez lembrar a infância, quando corria livre pelas pastagens da fazenda do tio Jerônimo, no interior. Passava todas as minhas férias de verão por lá. Perseguia sagazmente filhotes de ovelha e de quando em vez era também perseguido por cabras furiosas. Sorria muito, chorava manhoso por um agrado ou presente e sempre, sempre estava com algum machucado ou arranhão. Devo ter sido o moleque mais espoleta da terra.

Mas e esse sentimento. Continua. O que será que está faltando?

O vermelho, em uma curva, sobrepondo maioral as outras cores, me lembrou do primeiro encontro com Luiza. Eu tinha uns quinze anos. Ela, uns treze. Foi amor à primeira vista. Naquele momento, em que ela tropeçou no meio da sorveteria e carimbou minha cara com sorvete sabor morango, eu tive a certeza de que ela ia ser minha mulher para o resto da vida. Tomamos muitos outros sorvetes naquelas férias e nas outras que a sucederam.

Se pelo menos pudesse saber o significado desse vazio dentro de mim.

O primeiro beijo que dei em Luiza aconteceu em um dia ensolarado, debaixo de uma figueira marrom como a reta que cortava abruptamente o quadro na diagonal. Lembro como se tivesse acabado de acontecer. Ela corou e se riu das cócegas que os pelos que começavam a nascer na minha cara faziam. Tinha um sorriso lindo. Criava covinhas em suas bochechas rosadas. Ela ria meio de lado, como quem esconde um segredo. Ria como anjo, sua mãe costumava dizer.

Serão saudades de Luiza? Então por que não aconteceu nos outros anos?

Crescemos, nos formamos e casamos. O vestido de Luiza era longo e branco, como a pincelada geniosa do pintor no canto do quadro. Olhei pro lado e vi aquele par de chinelos azuis. Eles estavam ali nos últimos anos sempre parados, como esperando ela chegar, tirar os sapatos do lado de fora da casa e gritar comigo antes de calçá-los, por conta de meu péssimo modo de pisar com o pé sujo no chão limpo.

Os chinelos eram azuis como a água que levou minha mulher embora dessa vida. E era azul também o tom que mais me chamou a atenção naquele quadro. Me lembro exatamente do dia em que cheguei em casa e todos estavam a minha espera, entreolhavam-se como se sorteassem em uma roleta maldita quem iria me dar a notícia. Meu pai me abraçou e chorou aos soluços. Não entendi nada. Por que aquele clima fúnebre? Onde estava Luiza? Não souberam me explicar muito bem. Um erro de cálculo, a água da piscina, uma convulsão. Luiza morreu. Minha vida ficou negra como parecia ter sido a última pincelada do quadro, com ares de mal acabado, sem um fim

definido. Apenas o negrume e a dor. Luiza repousa em paz. E vive em minhas memórias.

Lembrei do vazio incógnito que estava me incomodando. Olhei pela casa: tudo estava intacto. Nada mudou. Era a mesma casa em que Luiza corria saltitando nas manhãs de domingo. Os móveis, a cor das paredes, o chinelo, o quadro. Lembrei do que faltava, e desse vazio que não existia nos últimos anos. Faltou a promessa. A promessa de que ia continuar tentando viver com sua ausência, como fazia todas as viradas de ano. Não prometia ganhar mais dinheiro. Nem perder peso. Muito menos começar um novo projeto. Prometia apenas continuar.

Baixei a cabeça, e antes mesmo da primeira lágrima rolar do meu rosto e atingir o chão, já tinha feito a promessa. Mas prometi, dessa vez, não fazer promessas de ano novo.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Capítulo II - Tiro certeiro.

Lampião conseguiu com certa dificuldade enxergar um rastro de sangue escuro que se estendia da lateral da árvore para atrás dela. Levantou a mão esquerda, ordenando a todos que ficassem imóveis. Olhou-os um por um, tentando identificar os faltantes. Deu falta apenas de um, mas na verdade os ausentes eram dois: Faltavam Matuto e Coqueiro. Os pertences do primeiro repousavam-se próximos à fogueira extinta. Nem traço do segundo. O tiro, que parecia ter ecoado por todo o sertão, causara alarde não só nos homens, mas também nos animais. Os cavalos estavam irrequietos, agitados, embolando as cordas que os prendiam. Quase dava pra sentir o cabresto machucar suas bocas. Uma grande nuvem preta tapou por alguns instantes a luminosidade da lua. Com seus rifles apontados, Lampião e Corisco seguiram devagar a marca no chão. Atrás deles os outros homens, todos dispostos a disparar contra qualquer coisa que se movesse naquela escuridão pungente. O ar estava pesado e tinha um odor de mortandade, odor esse que se alastrava rapidamente pelo calor do sertão sempre que sangue era derramado.

Com os ouvidos, Matuto localizou exatamente onde estava sua vítima. Pôde deduzir, inclusive, sua altura e seu peso através do barulho que fazia. De uma só vez, saiu de trás da árvore e disparou. O tiro foi certeiro e fatal. Matuto, silente e discreto como sempre o fora. Cerrou os olhos na escuridão para ver se aquele corpo que jazia inerte estava realmente morto. Assim que a fumaça e o odor da pólvora se dissiparam, Matuto sentiu o cheiro de sangue e mortandade no ar pesado, que sempre se alastrava rapidamente pelo calor do sertão quando havia um assassinato. E, com muita dificuldade, transportou o corpo pesado para mais longe, deixando um rastro de sangue escuro que mal dava pra ser visto na escuridão da noite. Agachou sobre o corpo e fez o sinal da cruz, iniciando uma oração em silêncio. Retirou o facão da bainha com calma e viu o reflexo da lua sumir na lâmina, sendo encoberta por uma grande nuvem negra. Fechou os olhos, respirou fundo e começou a retirar o couro de sua vítima de forma destra e vagarosa.

Lampião e Corisco sobressaltaram-se ao ver aquele homem sem camisa sobre um corpo, mutilando sua pele, arrancando uma nesga de aproximadamente dez por dez centímetros. Quando chegaram mais perto da estranha cena, observaram a vítima sob Matuto, que estava ofegante e com as mãos cobertas de sangue. Era um bezerro, malhado, de porte mediano e corpulento, um modelo totalmente atípico para os padrões dos bezerros nordestinos, que geralmente eram subnutridos e pequenos. Sobre a mutilação, Lampião não estranhava mais. Todas as vítimas que o compadre fazia nas batalhas e que não eram levadas para longe, tinham um pedaço de seu couro arrancado. Era como um troféu. Matuto dizia que um dia ia costurar uma colcha de retalhos, feita somente de pele de seus inimigos. Enquanto isso não acontecia, curtia as peles no sol dos dias e as guardava na algibeira de seu uniforme. Dos homens, preferia tirar a pele do lombo, das mulheres costumava rasgar os seios e dos animais sempre separava uma parte do couro que recobre as costelas.

O bezerro estava caído, um tiro atravessara toda a cabeça, vazando os dois olhos com uma precisão quase cirúrgica. Estava claro que a morte tinha sido instantânea e que, provavelmente, Matuto sentira uma ameaça com a aproximação do animal. Terminada a retalhadura do novilho, Matuto guardou o couro no bolso, lavou as mãos com água da cabaça e se aproximou de Lampião.

- Pede os homi tirá um pedaço pra mode nóis comê e levá o resto pra dividí com o povo necessitado da cidade assim que o dia clareá, cumpadi.

- Precisa deixá um pedaço pra servi pro carcará. Logo ele chega pra disputá a carne com os abutre. – Exigiu Lampião.

- Tá feito. – Matuto virou as costas e voltou para o acampamento, tão quieto quanto passara o dia anterior.

Pouco tempo depois do início do crepúsculo, um sibilar de cascos de cavalo podia ser ouvido de longe. Os momentos que passaram durante a noite, no episódio do bezerro morto, foram cansativos e deixaram todos ressabiados. Dessa vez quem era esperado finalmente chegou. Lampião abriu um sorriso quando avistou Sabino em cima de seu cavalo. O homem apeou-se, abraçou longamente o chefe e admirou a cena que o envolvia. Há muito não via um exército de sertanejos, prontos, sempre prontos para o que der e vier.

- Comé que tá, meu patrão?

- Arre, Sabino! Pensei que tu num ia nunca chegá, mode que nós já estava de saída.

- Não cumpadi. Eu sempre chego. E já to doido pra rasgar um bucho de macaco!

- Se aquete, homi. Nós precisa decidí o que fazê primeiro. Matuto! Corisco! – O chefe queria reunir a cúpula ali mesmo, já para decidir qual direção tomar.

Os dois se aproximaram devagar. Sentiam certo respeito por Sabino, por quem Lampião tinha consideração de irmão. A própria figura do cangaceiro era distinta e imponente. Andava com a roupa impecável, as armas limpas com esmero e o chapéu alinhado. Nunca falava alto e suas ordens, por mais ríspidas que fossem, pareciam um pedido de um ente querido em extrema necessidade.

Sabino era valente e inteligente. Sagaz. Lampião se valia disso para montar todas as estratégias das invasões. Sua perspicácia espalhara fama de matador e ele foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso que faziam no nordeste. Seu nome estava envolvido em quase todas as lendas que existiam a respeito do bando, como a história que se contava de quando, devido à estratégia de Sabino, três cangaceiros enfrentaram uma volante com mais de cento e cinqüenta homens e mataram todos, sem nenhum arranhão. Na verdade, Lampião gostava de fazer saberem de suas companhias, que em geral aterrorizavam o povo mais do que sua própria figura.

Enquanto cinco homens subiram o morro anunciando o sucesso da partilha do novilho na cidade, os três comandantes definiam o que fazer dali em diante. Precisavam atravessar o estado até chegarem em Mossoró, mas não podiam passar pelos grandes centros. Já corria à boca solta que o bando era numeroso e perigoso e todas as centrais policiais já estavam em alerta, além das rondas das volantes - espécie de milícias civis chefiadas por militares e mantidas pelo governo – que percorriam todo o nordeste em busca de um homem do cangaço. O grupo precisava correr pelas zonas periféricas para chegar são nas redondezas de Mossoró e encontrar com Massilon e seu exército com saúde e disposição. Corisco arriscou um palpite:

- Nós pode ir até Natal beirando a serra. Macaco nenhum vai ver nós. E o Coqueiro já labutou pra uns coroné lá em Mossoró, pode ajudá nós a chegá nos arredor sem perigo.

- Tá feito. – Respondeu Lampião, com a anuência de Sabino e Matuto. – Manda chamar Coqueiro.

Um homem se destacou prontamente para procurar o tal homem de alcunha "Coqueiro". Não achou ninguém.

- Chefe, não tem nenhum Coqueiro no meio de nós, não!

- Tá doido, cabra? Onde bobonica ta o homi, então? - Outro homem, de nome "Trovão" conhecia bem as redondezas de Mossoró e se prontificou a ajudar a guiar enquanto o outro não aparecia.

Nesse momento, José Cesário, conhecido no meio dos homens do cangaço como “Coqueiro”, estava recebendo a quantia de vinte mil réis por uma informação preciosa dada ao chefe de uma das volantes mais perigosas do sertão, que prontamente se dirigiu a Mossoró para alertar o prefeito e os cidadãos.

Lampião e seu bando continuaram viagem na direção da cidade de Luís Gomes. Três dias depois, quando chegaram, se depararam com um pequeno grupo de guerrilheiros com a custódia de Coqueiro, tido como refém. Os algozes pediam que o grupo recuasse em troca da vida do cangaceiro. Todos os homens do bando se entrincheiraram e um pequeno grupo liderado por Matuto saiu nas divisas da cidade na esperança de pegar os inimigos desprevenidos, pelas costas. Dois dias de cercos e ameaças se passaram e, às duas horas da tarde, com o sol a pino e a fome batendo forte, o primeiro tiro foi disparado. O homem que se dizia líder do grupo inimigo caiu com um tiro certeiro cravado na nuca. Pela perícia do ataque, Lampião sabia que a tentativa de Matuto tinha sido bem sucedida. Mais um combate estava começando sem previsão de término. Lampião e seus homens estavam em absoluta maioria, mas não se podia saber por quanto tempo.
Era fim do mês de maio.
(Continua...)

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

Capítulo I - Coisa de homem matuto, coisa de homem ruim.

Diziam ser Horácio José da Silva, vulgo Matuto, um dos cangaceiros mais temidos e respeitados do bando de Lampião. Fulgurava no alto escalão do grupo ao lado de outros soldados como Corisco, o Diabo Louro.

Em certa dada Matuto, Corisco, Lampião e Maria Bonita, acompanhados de mais quinze ou vinte homens do bando atravessaram o deserto semi-árido do sertão a caminho de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Iriam saquear a cidade, que estava crescendo vertiginosamente nos últimos tempos. Com seus parques salineiros e firmas comprando e prensando algodão, Mossoró poderia render um bom dinheiro ao bando, que tinha uma estratégia bem conhecida. Seqüestrariam uma figura notável de uma cidade vizinha e pediriam resgate mais uma grande quantia de dinheiro para não realizarem a invasão.

Pararam em uma pequena propriedade e apearam-se dos cavalos. Enquanto Maria Bonita foi reabastecer as cabaças de água, os generais sentaram confortavelmente debaixo de um jacarandá para descansar do calor.

Matuto observou alguns homens levarem os cavalos para também beberem água em um manancial quase seco ali perto. Estava com o olhar perdido e semblante preocupado. Seus olhos negros não se moveram com os homens. Ficou ali, fitando algo no vazio da seca. Gotas de suor desciam de sua espessa e lisa cabeleira. O calor era acentuado e o sol do meio-dia durava quase o dia todo. Quase se podia ouvir o solo trincolejar, como fazia a madeira nas fogueiras noturnas. Lampião olhou para Matuto que não pronunciara uma palavra sequer desde a entrada no estado do Rio Grande do Norte, depois de ter cortado fora a cabeça de um sertanejo que resistira ao ataque, na divisa com a Paraíba. Preocupado chegou mais perto.


- O que é que há, compadre?

- Sei não, compadre. To sentindo uma coisa estranha.

- Tá doente, Matuto? Pode ficar doente não. Nós precisa pegar os presentes do povo em Mossoró e voltar.

- Tô doente não, compadre.

- O que é que há, então, Matuto? O cabra que sente coisa estranha e não tá doente não é cabra macho.

- Sei não. Sei não. Acho que tô preocupado. - Matuto mudou o olhar de direção e sentiu uma brisa fresca gelar o suor que brotava de seu rosto. Uma brisa que parecia prenunciar uma desgraça.

- Credito nisso não, compadre. – Contestou Lampião – O cabra precisa ter força e colocar a fé no Padim Padre Ciço. Cangaceiro não se preocupa com nada. Cangaceiro não teme é nada.

- Essa noite sonhei com cobra, compadre.

- Sonhar com cobra é traição. – Interrompeu Maria Bonita em tom quase catedrático enquanto trazia as cabaças de água cheias e algumas frutas.

- Traição que nada, mulher.


Enquanto Lampião e Maria Bonita discutiam se sonhos tinham ou não significado, Matuto passou a observar a relva baixa balançar com um vento quase imperceptível. Estava sentindo a mesma coisa que sentira no episódio da casa grande, na fazenda em que se criara em Caruaru. Naquele dia, em seu aniversário de dezoito anos, aprendera a ler os presságios no comportamento na natureza quase morta do sertão da pior forma possível. Estava acontecendo de novo. O cenho franzido involuntariamente fazia os nervos se tensionarem e o sangue ferver.

Aquela era a última parada antes do início da invasão do Rio Grande do Norte. Dali em diante atacariam os vilarejos em busca de “presentes” até chegarem em Mossoró, já bem estabelecidos. O bando não estava completo. Faltava uma falange, que vinha do Ceará chefiada por Massilon, outro capitão do cangaço. Lampião marcara de se encontrar com Massilon nos arredores de Mossoró para prepararem a última investida. Estavam ali esperando apenas mais um soldado, do apreço do chefe, que vinha em disparada há dias para encontrar com seus pares, direto da Bahia. Era Sabino, grande estrategista e homem da confiança de Lampião.


À noite, acampados em volta de um punhado de brasa, o único som que se podia ouvir era dos grilos, embalando o sono daqueles homens ruins e malvados com uma canção de ninar repetitiva e incansável. Matuto, que não conseguia dormir, olhava as estrelas com os sentidos em alerta e respiração rápida e pesada. Ouviu, de repente, um chacoalhar de folhas perto da árvore onde sentara mais cedo. Colocou a mão na carabina que estava pousada a sua direita e se preparou para levantar, silente e discreto, como sempre o fora. Andou na direção da árvore, as parcatas sem fazer o mínimo ruído, sabendo exatamente de onde vinha o barulho de folha seca amassada. Sentia o cheiro da brisa fresca invadir o corpo. Recostou-se na árvore e preparou o ataque. Seria certeiro e fatal. Segundos depois, todos os homens do bando estavam de pé e em alerta, com as armas apontadas para o local de onde veio o tiro.
(Continua...)