terça-feira, 20 de setembro de 2011
O articulista
segunda-feira, 19 de setembro de 2011
Dissonante
Que pode ser a chave para a liberdade.
Preciso manter a mente aberta;
Espalhar por aí toda a verdade.
Acho que sempre tive a consciência,
Mas esqueço de praticá-la.
Seria ultraje, indecência
Me recusar a seguir essa escala.
Fecho as mãos e finalmente percebo
A força que sempre tive:
Seguir minhas ideias, superar o medo;
Lutar e finalmente ser livre.
Sou a voz na escuridão!
O som perdido, esquecido.
Reverberando nos ouvidos da multidão,
Submisso, oprimido, repartido
Sou o grito, o escândalo!
Guardado em uma caixa selada.
Guerrilheiro, heroi ou vândalo;
Aprisionado em uma realidade inventada.
Tenho em mim a força da mudança
Necessária para a revolução!
De repente acordo, na esperança
De voar e dominar a imensidão!
Mas no abrir da pálpebra cansada,
Antes mesmo da lua se retirar,
Me esqueço da empreitada.
São cinco e meia, é hora de ir trabalhar...
sexta-feira, 9 de setembro de 2011
A deslocada
segunda-feira, 5 de setembro de 2011
O escritor
terça-feira, 23 de março de 2010
O meu sonho
As pessoas eram exatamente iguais às pintadas por Botero. Gordas, alegres, voluptuosas e muito bonitas. Andavam pelas ruas com uma leveza única, e falavam de uma maneira bitnick, como os diálogos de Bukowski, cínicas, debochadas e extremamente interessantes.
Eu estava sentado na areia da praia de Ipanema. Era, também, um personagem dos quadros de Botero. Ao meu lado, tinha uma garrafa de whisky, o cão engarrafado. Eu era Vinícius de Moraes, mas me chamava Nicanor. O mar tinha cheiro de saudade e eu ficava observando uma garota passar com os pés na água, de tatuagem no braço e sabia, com uma certeza mais que absoluta, que ela era a minha garota de Ipanema. Ela também tinha saído de um Botero e usava um vestido branco de seda, que dançava conforme o vento batia. Lá no fundo, um golfinho amarelo pulava nas águas e fazia acrobacias. Todas as vezes que ele emergia, eu ouvia uma banda tocar. Diferente do céu de baunilha dos outros lugares, logo acima de mim uma moça dançava entre as estrelas. Era uma bailarina, com roupas de bailarina, fazendo coreografia de bailarina. Mas o que tocava era Belle & Sebastian, valsas e o Bolero de Ravel.
Eu estava triste porque, apesar de estar ali, três Chico-Buarques andavam pela rua perguntando por onde eu andava e lembravam que eu tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Tomava o whisky na boca da garrafa e esperava que a garota de Ipanema viesse ao meu encontro, mas o que ela fazia era só andar, molhando os pés no mar. Quando meu desespero se tornou insuportável, fui transportado para um caminho. Uma estrada de terra batida. Nas duas laterais, ipês roxos carregados chacoalhavam com o vento. Eu estava de mãos dados com alguém que não sei quem é e não sentia mais nada ruim. Nem dor, nem medo, nem saudade, nem tristeza. Vestido com um terno de linho azul marinho, com uma rosa vermelha na lapela, eu caminhava na estrada, de mãos dadas com a desconhecida e tinha dentro de mim uma alegria, uma quentura inimaginável. No fim da estrada, jazia um arco-íris que começava num cristal gigante.
Eu tive um sonho. E ele descrevia o mundo perfeito. Acordei com um gosto de fel na boca. Abri a janela e chequei o céu. Não era mais de baunilha. E não tinha mais bailarina. Era cinza, escuro, feio e opressor. Eu não era mais o Vinícius de Moraes. Nem me chamava Nicanor. Tirei a areia dos pés, dobrei o vestido branco que dançava enquanto o vento batia no varal, tomei água na boca da garrafa e fui trabalhar ouvindo música incidental.
domingo, 21 de março de 2010
Inesquecível
Na primeira vez que ela apareceu pra mim, achei que era um sonho. Afinal, que tipo de espírito aparece do além pra te lembrar de colocar as roupas no varal? Ou de tirá-las, antes da chuva? Além disso, era tarde da noite, eu tinha algumas doses de scotch na mente e estava naquele limbo característico que fica entre o sono e o despertar. Num daqueles momentos em que estamos acordados demais para nos saber dormindo e dormindo demais para nos saber acordados.
“Não esquenta. Se um dia eu morrer, olharei por você. Serei seu anjo. Voltarei na forma de uma borboleta, pra colorir os seus dias”, ela dizia. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, tudo aconteceu conforme o planejado. Lembrei de colocar as roupas no varal, tomei o café da manhã dos campeões – uma xícara grande, nicotina – e fui trabalhar.
Nunca fui uma pessoa de espíritos, e no caminho de volta pra casa, pensava que aquilo era
besteira; uma daquelas saudades bobas que sentimos de alguém que se foi e não voltará nunca mais. Tudo estava do mesmo jeito que deixei ao sair, tirando uma pequena tropa de formigas, que se amontoava na tampa do açucareiro descuidadamente esquecido sobre a mesa. “Bom, ela me disse pra não esquecer das roupas do varal. Não havia nada, na resolução, sobre o açucareiro”, pensei.
O problema é que lembranças e saudades bobas, por mais bobas que sejam, nos angustiam. E eu bem me lembro dela me esperando chegar do trabalho com um bom jazz tocando no rádio, espalhando seu perfume de lavanda por toda a casa. Jantávamos ao som de Billie Holyday, Miles Davis e, às vezes, dançavamos no carpete da sala, de rosto colado, depois da ceia, ao som de Coltrane. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, jantei comida congelada e tomei o vinho preferido dela – um cabernet sauvignon chileno – ao som de Unforgettable, do Nat King cole. Como todos sabem, uma garrafa de vinho pode embriagar uma pessoa, e eu dormi estirado no sofá com o som ligado e a roupa no varal.
No meio da noite, olhei para a janela da sala, aberta, e a cortina balançava suavemente. Tinha um cheiro de lavanda no ar. Também tinha barulho de chuva lá fora. Mas era um daqueles momentos em que estamos bêbados demais para discernir fatos da realidade. E eu sinceramente não sei se foi um sonho, porque o CD já tinha acabado há muito, mas era Unforgettable que tocava enquanto a cortina balançava, a chuva caia e o cheiro de lavanda invadia a casa. E esse foi o segundo dia em que ela apareceu pra mim.
No segundo dia em que ela apareceu pra mim, não disse nada. Apenas flutuava na sala, sobre o carpete, balançando suavemente ao som de Nat King Cole. “Unforgettable, that’s what you are...”, e ela sorria. “Unforgettable, though near or far...”, e ela rodopiava. “Unforgettable, in every way. And forever more, that’s how you’ll stay...”, a cortina balançava, a chuva caia e a brisa com cheiro de lavanda mexia seu vestido branco.
Acordei com a cabeça pesada, por causa do vinho. Banho. Café da manhã dos campeões. Uma xícara grande e nicotina. A janela da sala estava fechada e as roupas do varal, secas. Na segunda vez em que ela apareceu pra mim, eu estava bêbado. E eu vi coisas que não aconteceram. Saí de casa com pressa, atrasado. Na volta, refutei qualquer possibilidade dela ter aparecido pra mim. Não havia nada de concreto, e eu já estava cansado de ouvir Nat King Cole.
Chegando em casa, percebi que as roupas não estavam mais no varal. E percebi, também, que a janela estava aberta e a cortina balançava lá dentro. Um som abafado, baixo, vinha da casa. Meu coração disparou, os olhos encheram de lágrima. Abri a porta, trêmulo. Era Unforgettable que estava tocando. Uma tropa de formigas se amontoava na tampa do açucareiro e, na corrente de ar, que passava pela sala, vinha um leve perfume de lavanda. Eram as roupas, dobradas no sofá, que exalavam o cheiro. O céu estava claro e o sol de verão ainda brilhava.
Corri pro banheiro, fugindo de algo inevitável. Olhei no espelho. Só podia ser um sonho. Ví uma cara judiada, com a barba mal feita. Os olhos fundos, olheiras negras. Lavei o rosto e saí. E o mundo caiu em uma tempestade torrencial quando eu coloquei o pé pra fora. Entrei no carro, ensopado. Parei numa banca de flores, comprei um maço de rosas vermelhas com lavandas roxas. No caminho pro cemitério, a chuva forte, o sinal fechado. Eu não vi como aconteceu a batida. Lembro de ter capotado algumas vezes e sentir o sangue na boca. O vermelho das rosas, misturado com o roxo da lavanda, jazia a menos de dois centímetros do meu rosto.
A chuva parou, o sol abriu e uma brisa refrescante bateu. Uma borboleta pousou em cima do arranjo. O locutor da rádio anunciou a música que estava começando. Era Unforgettable, do Nat King Cole. Respirei fundo o perfume de lavanda, senti a brisa batendo e sorri para a borboleta. E essa foi a terceira vez que ela apareceu pra mim.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Comprimidos e conhaque*
- Nome?
- Malu.
- Malu de quê? Quero o nome completo.
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.
- Como assim, “puta”?
- Puta! Vendo meu corpo por dinheiro. Faço sexo com homens para garantir meu sustento.
Já era noite quando Malu saiu da delegacia. Aquele dia não lhe renderia mais nem um tostão. Estava decidida. Nunca mais ia passar uma madrugada naquelas ruas imundas e infernais da cidade. Disputava espaço com travestis violentos, bêbados valentes e metidos a estupradores, jovens ricos e justiceiros e as colegas de profissão, sempre desleais e traiçoeiras.
Lembrar de todas as vezes que foi espancada, queimada por pontas de cigarro acesas e molhada de urina ou outro dejeto deixava Malu triste e desanimada. Nunca fora outra coisa se não objeto sexual. Não teve opção. Só na adolescência, já sozinha no mundo, foi entender que aceitar doces do pai em troca de silêncio enquanto era violentada também podia ser uma forma de prostituição. Seguiu em frente. Rodou boa parte do país em boléias de caminhão, ao lado de homens barrigudos, fedidos e, como seu pai, violentos. Fazia sexo por comida, por dinheiro, por carona ou simplesmente para não ser morta.
Aliás, já considerava morta a parte do seu corpo que servia de escape para aqueles monstros barbudos que encontrava. Não via serventia para aquele buraco. Na cabeça da jovem Malu, servia apenas para excretar seus restos e servir de abrigo para corpos cansados, inseguros e solitários.
Quando chegou na cidade, depois de depender da bondade condicional de desconhecidos, percebeu que sua vida poderia ser diferente. Firmou ponto em uma das ruas do centro e foi dividir um quarto com mais três mulheres da vida. Uma delas, Raíssa, ensinou à Malu a forma mais fácil de sair da realidade. “Um comprimido de Lexotan e um gole de conhaque! Está aqui a sua passagem para o mundo perfeito! O mundo do seu jeito, com a sua cara!”.
Assim que o cruel assassinato de Raíssa apareceu em todos os noticiários, Malu e suas companheiras decidiram mudar o horário de trabalho. Era mais seguro trabalhar à tarde, diziam. Malu agora dividia o espaço com camelôs, vendedores e os transeuntes que lotam aquela região da cidade todos os dias. Sem preocupação com a polícia e com homens violentos, tudo era mais fácil. Seus clientes barbudos foram substituídos por jovens de terno e gravata, igualmente solitários e inseguros e sua vida se resumia em uma única coisa: garantir a cartela de comprimidos e a garrafa de conhaque, seu passaporte para a felicidade.
Nada de ruim existia no caleidoscópio que aquela mistura criava na cabeça de Malu. Lá, onde era realmente livre, podia voar, amar e rir sem medo. Nada lhe custava e a brisa era morna e suave. Seu corpo moreno e esguio não carregava nenhuma cicatriz. O céu era azul, sem nenhuma nuvem. Visitava o mar sempre que queria e descansava sob a sombra de árvores com frutos saborosos. Ali, sim, a vida de Malu era perfeita. Seus cabelos, castanhos e cacheados, caíam sobre os ombros com leveza. Seu sorriso era alvo e brilhante. Sua gargalhada ecoava nos quatro cantos.
Mas nada dura para sempre. Nem o sonho insano que o comprimido causava. Logo, o céu ficava escuro, uma dor insuportável tomava conta de sua espinha e o despertar era amargo, tinha gosto de fel. Malu precisava levantar, aprontar-se para o trabalho e sair na esperança de ter uma tarde agradável, sem precisar responder às perguntas do delegado:
- Nome?
- Malu
- Malu de quê? Quero o nome completo
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.
*Texto postado originalmente no blog do projeto Pândega Literária