terça-feira, 20 de setembro de 2011

O articulista

"(...) Enfim, é preciso se doar, passar por cima do orgulho e, acima de tudo, procurar o diálogo para conferir sucesso a uma relação. O amor não atende regras. Ele simplesmente acontece, de maneira personalizada, e depende de nós adotarmos uma postura que assegure seu sucesso. Em outras palavras, amar é se dedicar ao ponto de abdicar da própria individualidade, não pelo outro, mas pela união em si. 

Não adianta esperar que as coisas se resolvam por elas mesmas. Tente, consiga! Leve sua relação para outro nível. Invente, inove, evite a rotina, seja criativo! Está dentro de você o segredo para a felicidade!"

Depois de ler cuidadosamente cada palavra do artigo que escrevera, anexou o documento no e-mail e mandou para o editor do jornal. Fez umas pesquisas na internet, tentou achar um restaurante de comida japonesa perto de casa e desistiu em seguida. Não estava com fome e, bem, com sorte, teria tempo pra comer no final da noite e provavelmente a maioria dos restaurantes decentes estariam fechados.

Além do mais, comida japonesa estava no cardápio da terça-feira durante todo o tempo que permanecera casado. Invariavelmente, incondicionalmente, terça-feira era dia de comida japonesa. E pronto. O simples pensamento de mudar a rotina o apavorava.

Escrevia para o maior jornal da cidade. Sua famosa coluna saía no caderno de comportamento todas as quartas-feiras e, às sextas, escrevia textos motivacionais e altamente reflexivos em seu blog. Tinha uma legião de leitores fanáticos, que replicavam seus textos na grande rede como se aquilo fosse o santo graal, a chave da plenitude, a resolução de todo e qualquer problema. Isso porque escrevia simplesmente o que as pessoas queriam ler. Soube, em dado momento da vida, que o mundo moderno deixa as pessoas inseguras, confusas, altamente carentes e com auto-estima dilacerada. Colocava uma carga filantrópica no texto, como se detivesse a fórmula de se levar uma vida feliz e plena.

Recolheu a chave do carro, passou a mão na jaqueta pendurada na cadeira e atravessou a redação se despedindo dos colegas, que o cumprimentavam com um olhar admirador e até indulgente, principalmente as mulheres. Ah, as mulheres! Aquelas coisas teoricamente complicadas que precisam de auto-afirmação e de um modo-de-fazer para tudo na vida. Escrevia para as repórteres loiras e gostosas que transitavam nas casas políticas, hipnotizando vereadores e deputados com seus decotes discretos, donas de um poder absoluto mas miseravelmente infelizes por engatar romances com 'porcos machistas' e 'canalhas cretinos'. Mas nunca se esquecia das feinhas donas de consciência avançada que liam jornais, navegavam nas redes sociais e frequentavam os picos da high society, esperando encontrar o príncipe encantado, mister universo cheio de atributos intelectuais quando, convenhamos, iam conseguir, no máximo, um nerd honesto e disposto. Criava um discurso genérico e altamente óbvio, mas fazia seus leitores acreditarem que nunca tinham se deparado com aquelas reflexões. "Como é que eu não pensei nisso antes?". Seu dever era colocar essa pergunta na cabeça das pessoas.

Antes de arrancar com o carro, ligou o rádio e pegou a música que marcou o maior romance de sua vida pela metade. Esperou ela terminar, ligou o iPod e seguiu em frente. Sem cinto. Sem olhar nos retrovisores. Sem se importar. Abriu uma goma de mascar, jogou a embalagem pela janela e parou o carro na faixa de pedestres para esperar o semáforo abrir.

Quando entrou em casa, topou com um ambiente vazio, quase estéril. Suas malas estavam sistematicamente arrumadas em frente ao sofá de três lugares. O restante das coisas já tinha sido levado pela ex-mulher, exceto o porta-retratos da família em cima de uma estante: pai, mãe e os dois filhos sorrindo com uma felicidade genuína em um domingo ensolarado no parque. Pegou a moldura, olhou para ela por alguns segundos e se lembrou da vida perfeita que teve. Fatalmente, claro, lembrou do que causou seu fim. Numa quarta-feira em que publicou um texto comparando lealdade e fidelidade e sua aplicação no dia-a-dia das megalópoles, foi flagrado pela ex-mulher com sua melhor amiga, na sua própria cama. "Fidelidade não tem que ser esforço. Tem que ser genuína. Quem ama não precisa trair. Não há em nenhum momento essa necessidade", dizia o texto. E lá estava ele. Na cama da esposa, com a melhor amiga da esposa, praticando aquilo que condenara um dia antes, no texto que escreveu alternando com SMS para a proto-amante, falando sacanagens leves e prometendo um bom vinho e uma boa 'comida'.

Colocou o que pode no carro e dirigiu até o apart hotel onde estava temporariamente instalado. Recebeu até alguns convites para dividir um apê, mas sua alma egoísta não permitia que estranhos ocupassem o mesmo local que ele. Descarregou algumas caixas, acamodou-as com displicência na entrada e saiu de novo. Parou em uma lanchonete, pediu um combo com batata e refrigerante grandes, comeu ali mesmo no carro e seguiu para um bar, onde sentou e bebeu o resto da noite. Estava um caco. Bêbado, sem mulher, miserável, odiado pelos filhos e esquecido pelos amigos.

Vomitou no banheiro, pagou a conta e foi pra casa. Precisava começar a preparar o texto que falava sobre alimentação saudável, evitar bebidas alcóolicas e praticar exercícios físicos que ia circular por milhares e milhares de perfis na sexta-feira.

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Dissonante

Sonhei com uma descoberta
Que pode ser a chave para a liberdade.
Preciso manter a mente aberta;
Espalhar por aí toda a verdade.

Acho que sempre tive a consciência,
Mas esqueço de praticá-la.
Seria ultraje, indecência
Me recusar a seguir essa escala.

Fecho as mãos e finalmente percebo
A força que sempre tive:
Seguir minhas ideias, superar o medo;
Lutar e finalmente ser livre.

Sou a voz na escuridão!
O som perdido, esquecido.
Reverberando nos ouvidos da multidão,
Submisso, oprimido, repartido

Sou o grito, o escândalo!
Guardado em uma caixa selada.
Guerrilheiro, heroi ou vândalo;
Aprisionado em uma realidade inventada.

Tenho em mim a força da mudança
Necessária para a revolução!
De repente acordo, na esperança
De voar e dominar a imensidão!

Mas no abrir da pálpebra cansada,
Antes mesmo da lua se retirar,
Me esqueço da empreitada.
São cinco e meia, é hora de ir trabalhar...

sexta-feira, 9 de setembro de 2011

A deslocada

Poucos momentos da nossa vida nos dão a verdadeira certeza de que não pertencemos a qualquer lugar em que estejamos. Esta é uma história triste, devo alertar. Daquelas que deixam a gente pensando por horas. A nossa personagem principal - sim, é uma "ela" - pode dar um grande aperto no seu coração.

Antes de mais nada, vamos a ela. 

Ela é feia. 

Não. 

Ela não é feia. Só não atende os requisitos dos padrões criados pelo mundo contemporâneo, digamos. Redonda em cima, com parte do corpo torta, inapropriadamente torta. É a versão feminina do bonitão da turma, mas nesse caso é ela quem carrega um apêndice. Um incômodo apêndice. Um apêndice, talvez, determinante para sua condição de excluída. Vai saber?! Também não é esguia e charmosamente inclinada, como algumas de suas amigas. Nem tem o cabelo espetado, estiloso, como aquele punk descolado que, muitas vezes, é usado como trunfo.

Espera! Estou sendo injusto. Em alguns momentos da História, desde sua criação, ela foi essencial. Determinante. Passeava por aí como uma rainha, importante, bonita e atribuidora de estilo. Quem a escolhesse cuidadosamente, gozava de um sucesso tremendo e agradava todos aqueles que, por algum motivo, admirava o trabalho feito. Nessa época, a maioria da turma tinha peso e importância iguais. Ela não valia menos que os bonitões e, se quer saber, era mais usada que as magricelas tortas. Todos as cobiçavam e tinha até quem torcia para ser escolhido no mesmo período. Os bonitões, todos, rezavam para serem usados por cima dela. Era sua época áurea. Uma época em que as coisas aconteciam por causa dela e não apesar dela. Ela dividia períodos, ideias, canções. Colocava cada coisa em seu lugar com um cuidado e maestria impressionantes. Era ela quem mandava no pedaço.

Acontece que o mundo muda. E com o mundo, mudam muitas outras coisas. Conceitos, parâmetros, valores e preferências. E, foi durante uma dessas mudanças que ela perdeu o reinado. O trono sempre foi e sempre será dela por direito, não tenha dúvidas! Mas as coisas começaram a se simplificar, encurtar. Sua aparência voluptuosa não tinha mais charme. A compressão atingiu todos os níveis da produção em geral e, naturalmente, as magrinhas começaram a ganhar mais espaço. Ninguém gosta de assumir, mas na verdade, a turma toda entrou em decadência. Porque aqueles que os utilizavam frequentemente descobriram outros modos de comunicação e daí, meu amigo, não importa mais se você é "ele", "ela", tem apêndice, é punk descolado ou anda por aí em turma. Todo mundo caiu no mesmo buraco. E, como qualquer coletividade que entra em decadência, aqueles que são visualmente mais agradáveis são mais aclamados. Simples assim!

O advento da internet foi quase como sua sentença de morte. O bonitão e a magricela torta se tornaram os responsáveis por levar os utilizadores aonde eles quisessem. Ela se tornou um estorvo, por exemplo, em um lugar que só permitia 140 caracteres. Todos eles se tornaram. Mas ela, em termos de importância, estava muito longe do bonitão, das magricelas e até mesmo do punk descolado.

Hoje, apenas alguns dos utilizadores continuam dando a ela sua importância régia. Mas os lugares onde ela aparece são pouco visitados. Ou ela é simplesmente ignorada. Tornou-se, coitada, sem querer, um fenômeno behaviorista. Tornou-se, ela mesma, parte da psicologia moderna. Sim, apesar de ser lembrada por esses utlizadores cuidadosos, some às vistas dos que a ignoram normalmente. Afinal de contas, à parte a síndrome de Édipo, Elektra e as teorias sexuais Freudianas, a psicanálise já provou que nem sequer chegamos a registrar coisas que nossa mente ignora no dia-a-dia.

Minha amiga, a vírgula, ganhou uma homenagem. Espero que ela fique feliz. Fiz isso porque acho que ela está prestes a se matar. A varrer a própria existência das línguas do planeta. Fiz porque tenho um grande apreço por ela e não quero, de maneira nenhuma, que ela logre sucesso nesse comportamento suicida. Fiz porque, talvez, alguém leia essa homenagem e decida começar a utilizá-la, também.

A vírgula, minha amiga, não é qualquer uma. Mas a vírgula, coitada, está em baixa. Foi trocada por sinais mais atraentes. E, sabe, eu até gosto desse jeito gordinho e desajeitado que ela tem!

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O escritor

Já era tarde da noite. Sentou na frente do computador, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro, prestes a transbordar - reflexo de uma mente inquieta e carente de nicotina e um corpo apático e desanimado. Era a terceira vez que tentava escrever naquele dia. Como todas as outras vezes, ficou olhando o cursor piscar por um longo tempo. Procurava, no fundo da mente, a maneira de iniciar aquele texto e só encontrava um grande vazio. 

Ele estava de pé, em um grande e vasto campo, olhando o nada. Não ventava. Não fazia calor. Não havia mosquitos nem animais. Gritou e percebeu que também não tinha barulho. Estava tudo em uma mudez incólume. Era apenas um grande gramado que se unia ao horizonte em todas as direções. O céu estava azul, sem uma única nuvem. Mas não havia sol. Era apenas um tapete azul claro, que se unia ao verde do gramado em algum lugar lá longe.

Bateu o cigarro no cinzeiro de novo. O cursor do editor de textos continuava na mesma posição. Puxou um trago profundo e soltou a fumaça devagar, para cima, olhando o contorno e as formas que a fumaça ganhava ao alcançar o teto do quarto. A previsão do tempo do rádio que estava ligado na cozinha anunciava uma semana chuvosa e a aproximação de uma frente fria que vinha do sul. Esfregou os pés nus no carpete e bateu o cigarro mais uma vez no cinzeiro. O cursor continuava piscando no mesmo lugar.

De repente um vento frio bateu em suas costas. Virou-se, para ver de onde vinha a corrente, mas continuou sentindo a brisa fria subir pela espinha. Olhou para as nuvens no céu e percebeu que elas iam ganhando um tom mais escuro. Procurou alguma referência naquele vasto campo e não achou nada. Era só um piso verde, que se encontrava, lá longe, com um céu cinzento. Andou de um lado para o outro, olhou para baixo e percebeu que a grama não era de verdade. Era apenas um relvado sintético e perfeitamente sobreposto, folha a folha. Sentiu um ardor na mão esquerda e a balançou, como quem acaba de se queimar.

O cigarro tinha chegado no fim e a brasa da ponta estava em contato com seus dedos. Balançou a mão abruptamente e derrubou o cinzeiro cheio no chão, formando uma nuvem de cinzas que se assentou calmamente no carpete. Xingou, maldisse a vida e foi lavar a mão para aliviar a dor da queimadura. Voltou com a mão ainda molhada e a chacoalhou antes de posicionar os dedos sobre o teclado do computador. Algumas gotas se espalharam pelo monitor e uma delas caiu exatamente sobre o cursor que piscava no fundo branco. Fechou os olho, respirou fundo.

A dor tinha passado e, quando estendeu a mão para ver se estava queimada, sentiu alguns pingos cairem do céu. A chuva caia preguiçosa e esparsa, mal conseguindo molhar sua roupa. Quando alguns dos pingos caiam sobre o chão cinzento, levantava uma pequena nuvem de poeira, que se assentava calmamente. Olhou para o céu azul claro e procurou o ponto de junção com o campo cinza. Firmou a vista, cerrou os olhos e percebeu que uma fina linha separava os dois. Ela piscava em um ritmo entediante.

As tropas americanas tinham invadido algum país do oriente médio. O noticiário do rádio dava conta de milhares de mortes causadas pela explosão de um caminhão bomba na embaixada americana, que ficava ao lado de uma escola. A embaixada veio abaixo e todas as crianças morreram. O analista de conflitos assimétricos modernos dizia que os terroristas estavam cada vez mais sofisticados e bem armados. "Se não fosse pelo petróleo e esse imperialismo idiota, essas crianças não morreriam", pensou. Lembrou da história de dois irmãos que vira no jornal na semana passada. Eles estavam cavando a sepultura do pai recém assassinado pelas tropas invasoras e acabaram salvos de uma explosão porque, pequenos, de 12 e 14 anos, estavam totalmente dentro da cova no momento da explosão. Tinha decidido que ia escrever sobre esse evento curioso, dar um ar noir para a história e colocar toda a culpa no governo. Recolheu o cinzeiro do chão e acendeu outro cigarro. O cursor continuava piscando.

Procurou sinais da chuva nas nuvens, mas os pingos já tinham parado de cair. O vento também tinha parado. Ouviu um grande explosão e choro de crianças. Virou-se para ver o que estava acontecendo e viu um prédio demolido, com um filete de fumaça preta saindo do que deveria ser uma janela. De dentro dos escombros jorrava um líquido preto. Aquele esguicho alcançava, facilmente, uns 10 metros. Sentiu a barriga molhada, pensou na chuva de novo, mas a regata branca agora estava manchada de sangue. Mais à frente, ao lado do prédio demolido, havia um buraco retangular e uma pá. Inclinou o corpo para ver o que tinha dentro. Era ele, com 14 anos, deitado de bruços folheando uma revista ilustrada sobre as Grandes Guerras. Estava se divertindo muito com as imagens da revista. Um bombardeiro passou rasante pelo céu cheio de nuvens e soltou alguma coisa, que caía com um páraquedas. 

Levantou-se. Tomou um copo d'água e foi deitar. Não tinha o que escrever naquela noite. Desligou o computador e adormeceu ao som da estática do rádio que permanecia ligado na cozinha.

terça-feira, 23 de março de 2010

O meu sonho

Eu tive um sonho. E o sonho era um stop motion feito com pinturas. Por todos os cantos tocava música de Belle & Sebastian. Tudo parecia um quadro, mas as coisas se mexiam. O céu era cor de baunilha. Da cor dos céus de Monet. Não dava pra saber se era dia ou noite, mas havia nuvens espalhadas, com várias formas. Algumas pareciam coelhos, outras pareciam carros e muitas pareciam Deus.

As pessoas eram exatamente iguais às pintadas por Botero. Gordas, alegres, voluptuosas e muito bonitas. Andavam pelas ruas com uma leveza única, e falavam de uma maneira bitnick, como os diálogos de Bukowski, cínicas, debochadas e extremamente interessantes.

Eu estava sentado na areia da praia de Ipanema. Era, também, um personagem dos quadros de Botero. Ao meu lado, tinha uma garrafa de whisky, o cão engarrafado. Eu era Vinícius de Moraes, mas me chamava Nicanor. O mar tinha cheiro de saudade e eu ficava observando uma garota passar com os pés na água, de tatuagem no braço e sabia, com uma certeza mais que absoluta, que ela era a minha garota de Ipanema. Ela também tinha saído de um Botero e usava um vestido branco de seda, que dançava conforme o vento batia. Lá no fundo, um golfinho amarelo pulava nas águas e fazia acrobacias. Todas as vezes que ele emergia, eu ouvia uma banda tocar. Diferente do céu de baunilha dos outros lugares, logo acima de mim uma moça dançava entre as estrelas. Era uma bailarina, com roupas de bailarina, fazendo coreografia de bailarina. Mas o que tocava era Belle & Sebastian, valsas e o Bolero de Ravel.

Eu estava triste porque, apesar de estar ali, três Chico-Buarques andavam pela rua perguntando por onde eu andava e lembravam que eu tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Tomava o whisky na boca da garrafa e esperava que a garota de Ipanema viesse ao meu encontro, mas o que ela fazia era só andar, molhando os pés no mar. Quando meu desespero se tornou insuportável, fui transportado para um caminho. Uma estrada de terra batida. Nas duas laterais, ipês roxos carregados chacoalhavam com o vento. Eu estava de mãos dados com alguém que não sei quem é e não sentia mais nada ruim. Nem dor, nem medo, nem saudade, nem tristeza. Vestido com um terno de linho azul marinho, com uma rosa vermelha na lapela, eu caminhava na estrada, de mãos dadas com a desconhecida e tinha dentro de mim uma alegria, uma quentura inimaginável. No fim da estrada, jazia um arco-íris que começava num cristal gigante.

Eu tive um sonho. E ele descrevia o mundo perfeito. Acordei com um gosto de fel na boca. Abri a janela e chequei o céu. Não era mais de baunilha. E não tinha mais bailarina. Era cinza, escuro, feio e opressor. Eu não era mais o Vinícius de Moraes. Nem me chamava Nicanor. Tirei a areia dos pés, dobrei o vestido branco que dançava enquanto o vento batia no varal, tomei água na boca da garrafa e fui trabalhar ouvindo música incidental.

domingo, 21 de março de 2010

Inesquecível


Na primeira vez que ela apareceu pra mim, achei que era um sonho. Afinal, que tipo de espírito aparece do além pra te lembrar de colocar as roupas no varal? Ou de tirá-las, antes da chuva? Além disso, era tarde da noite, eu tinha algumas doses de scotch na mente e estava naquele limbo característico que fica entre o sono e o despertar. Num daqueles momentos em que estamos acordados demais para nos saber dormindo e dormindo demais para nos saber acordados.

“Não esquenta. Se um dia eu morrer, olharei por você. Serei seu anjo. Voltarei na forma de uma borboleta, pra colorir os seus dias”, ela dizia. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, tudo aconteceu conforme o planejado. Lembrei de colocar as roupas no varal, tomei o café da manhã dos campeões – uma xícara grande, nicotina – e fui trabalhar.

Nunca fui uma pessoa de espíritos, e no caminho de volta pra casa, pensava que aquilo era
besteira; uma daquelas saudades bobas que sentimos de alguém que se foi e não voltará nunca mais. Tudo estava do mesmo jeito que deixei ao sair, tirando uma pequena tropa de formigas, que se amontoava na tampa do açucareiro descuidadamente esquecido sobre a mesa. “Bom, ela me disse pra não esquecer das roupas do varal. Não havia nada, na resolução, sobre o açucareiro”, pensei.

O problema é que lembranças e saudades bobas, por mais bobas que sejam, nos angustiam. E eu bem me lembro dela me esperando chegar do trabalho com um bom jazz tocando no rádio, espalhando seu perfume de lavanda por toda a casa. Jantávamos ao som de Billie Holyday, Miles Davis e, às vezes, dançavamos no carpete da sala, de rosto colado, depois da ceia, ao som de Coltrane. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, jantei comida congelada e tomei o vinho preferido dela – um cabernet sauvignon chileno – ao som de Unforgettable, do Nat King cole. Como todos sabem, uma garrafa de vinho pode embriagar uma pessoa, e eu dormi estirado no sofá com o som ligado e a roupa no varal.

No meio da noite, olhei para a janela da sala, aberta, e a cortina balançava suavemente. Tinha um cheiro de lavanda no ar. Também tinha barulho de chuva lá fora. Mas era um daqueles momentos em que estamos bêbados demais para discernir fatos da realidade. E eu sinceramente não sei se foi um sonho, porque o CD já tinha acabado há muito, mas era Unforgettable que tocava enquanto a cortina balançava, a chuva caia e o cheiro de lavanda invadia a casa. E esse foi o segundo dia em que ela apareceu pra mim.

No segundo dia em que ela apareceu pra mim, não disse nada. Apenas flutuava na sala, sobre o carpete, balançando suavemente ao som de Nat King Cole. “Unforgettable, that’s what you are...”, e ela sorria. “Unforgettable, though near or far...”, e ela rodopiava. “Unforgettable, in every way. And forever more, that’s how you’ll stay...”, a cortina balançava, a chuva caia e a brisa com cheiro de lavanda mexia seu vestido branco.

Acordei com a cabeça pesada, por causa do vinho. Banho. Café da manhã dos campeões. Uma xícara grande e nicotina. A janela da sala estava fechada e as roupas do varal, secas. Na segunda vez em que ela apareceu pra mim, eu estava bêbado. E eu vi coisas que não aconteceram. Saí de casa com pressa, atrasado. Na volta, refutei qualquer possibilidade dela ter aparecido pra mim. Não havia nada de concreto, e eu já estava cansado de ouvir Nat King Cole.

Chegando em casa, percebi que as roupas não estavam mais no varal. E percebi, também, que a janela estava aberta e a cortina balançava lá dentro. Um som abafado, baixo, vinha da casa. Meu coração disparou, os olhos encheram de lágrima. Abri a porta, trêmulo. Era Unforgettable que estava tocando. Uma tropa de formigas se amontoava na tampa do açucareiro e, na corrente de ar, que passava pela sala, vinha um leve perfume de lavanda. Eram as roupas, dobradas no sofá, que exalavam o cheiro. O céu estava claro e o sol de verão ainda brilhava.

Corri pro banheiro, fugindo de algo inevitável. Olhei no espelho. Só podia ser um sonho. Ví uma cara judiada, com a barba mal feita. Os olhos fundos, olheiras negras. Lavei o rosto e saí. E o mundo caiu em uma tempestade torrencial quando eu coloquei o pé pra fora. Entrei no carro, ensopado. Parei numa banca de flores, comprei um maço de rosas vermelhas com lavandas roxas. No caminho pro cemitério, a chuva forte, o sinal fechado. Eu não vi como aconteceu a batida. Lembro de ter capotado algumas vezes e sentir o sangue na boca. O vermelho das rosas, misturado com o roxo da lavanda, jazia a menos de dois centímetros do meu rosto.

A chuva parou, o sol abriu e uma brisa refrescante bateu. Uma borboleta pousou em cima do arranjo. O locutor da rádio anunciou a música que estava começando. Era Unforgettable, do Nat King Cole. Respirei fundo o perfume de lavanda, senti a brisa batendo e sorri para a borboleta. E essa foi a terceira vez que ela apareceu pra mim.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Comprimidos e conhaque*

- Nome?
- Malu.
- Malu de quê? Quero o nome completo.
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.
- Como assim, “puta”?
- Puta! Vendo meu corpo por dinheiro. Faço sexo com homens para garantir meu sustento.

Já era noite quando Malu saiu da delegacia. Aquele dia não lhe renderia mais nem um tostão. Estava decidida. Nunca mais ia passar uma madrugada naquelas ruas imundas e infernais da cidade. Disputava espaço com travestis violentos, bêbados valentes e metidos a estupradores, jovens ricos e justiceiros e as colegas de profissão, sempre desleais e traiçoeiras.

Lembrar de todas as vezes que foi espancada, queimada por pontas de cigarro acesas e molhada de urina ou outro dejeto deixava Malu triste e desanimada. Nunca fora outra coisa se não objeto sexual. Não teve opção. Só na adolescência, já sozinha no mundo, foi entender que aceitar doces do pai em troca de silêncio enquanto era violentada também podia ser uma forma de prostituição. Seguiu em frente. Rodou boa parte do país em boléias de caminhão, ao lado de homens barrigudos, fedidos e, como seu pai, violentos. Fazia sexo por comida, por dinheiro, por carona ou simplesmente para não ser morta.

Aliás, já considerava morta a parte do seu corpo que servia de escape para aqueles monstros barbudos que encontrava. Não via serventia para aquele buraco. Na cabeça da jovem Malu, servia apenas para excretar seus restos e servir de abrigo para corpos cansados, inseguros e solitários.

Quando chegou na cidade, depois de depender da bondade condicional de desconhecidos, percebeu que sua vida poderia ser diferente. Firmou ponto em uma das ruas do centro e foi dividir um quarto com mais três mulheres da vida. Uma delas, Raíssa, ensinou à Malu a forma mais fácil de sair da realidade. “Um comprimido de Lexotan e um gole de conhaque! Está aqui a sua passagem para o mundo perfeito! O mundo do seu jeito, com a sua cara!”.

Assim que o cruel assassinato de Raíssa apareceu em todos os noticiários, Malu e suas companheiras decidiram mudar o horário de trabalho. Era mais seguro trabalhar à tarde, diziam. Malu agora dividia o espaço com camelôs, vendedores e os transeuntes que lotam aquela região da cidade todos os dias. Sem preocupação com a polícia e com homens violentos, tudo era mais fácil. Seus clientes barbudos foram substituídos por jovens de terno e gravata, igualmente solitários e inseguros e sua vida se resumia em uma única coisa: garantir a cartela de comprimidos e a garrafa de conhaque, seu passaporte para a felicidade.

Nada de ruim existia no caleidoscópio que aquela mistura criava na cabeça de Malu. Lá, onde era realmente livre, podia voar, amar e rir sem medo. Nada lhe custava e a brisa era morna e suave. Seu corpo moreno e esguio não carregava nenhuma cicatriz. O céu era azul, sem nenhuma nuvem. Visitava o mar sempre que queria e descansava sob a sombra de árvores com frutos saborosos. Ali, sim, a vida de Malu era perfeita. Seus cabelos, castanhos e cacheados, caíam sobre os ombros com leveza. Seu sorriso era alvo e brilhante. Sua gargalhada ecoava nos quatro cantos.

Mas nada dura para sempre. Nem o sonho insano que o comprimido causava. Logo, o céu ficava escuro, uma dor insuportável tomava conta de sua espinha e o despertar era amargo, tinha gosto de fel. Malu precisava levantar, aprontar-se para o trabalho e sair na esperança de ter uma tarde agradável, sem precisar responder às perguntas do delegado:

- Nome?
- Malu
- Malu de quê? Quero o nome completo
- Maria Lúcia da Silva
- Profissão?
- Puta.

*Texto postado originalmente no blog do projeto Pândega Literária