<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857</id><updated>2012-02-01T10:26:58.887-08:00</updated><category term='Três Dedos de Poesia'/><category term='Crônicas'/><category term='Contos'/><category term='Matuto'/><title type='text'>Três dedos de prosa...</title><subtitle type='html'></subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>16</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-2234803759374523215</id><published>2011-10-05T09:22:00.000-07:00</published><updated>2011-10-05T09:22:20.737-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>De frente pro crime</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Era madrugada de domingo. Rolei na cama, fugindo das partes empapadas de suor do lençol para tentar dormir mais um pouco, mas o calor e uma mosca que insistia em sobrevoar meus ouvidos não deixaram. Levantei, descolei meu terço do peito molhado e fui até a janela de madeira. Com certa dificuldade, abri a portinhola e o ranger das dobradiças enferrujadas prenunciou o que seria o dia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na rua de paralelepípedo, de frente para o bar que fica do outro lado, estava um corpo esfaqueado. O sangue, seco, dançou entre os blocos de pedra, fazendo um labirinto vermelho na ladeira. A pele negra do defunto ganhou um tom amarelo e alguma alma bondosa cobriu a cabeça com o caderno de esportes do jornal, com a foto de um golaço marcado pelo craque da camisa 10 de um time qualquer.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um pequeno amontoado de gente já tinha se aproximado para curiar o cadáver. Senti naquela gente a curiosidade mórbida comum dos crimes que acontecem nessa periferia. Pouco depois, o bar já estava lotado de todo tipo de sujeito. Josés junto com traficantes. Marias junto com prostitutas. Todos curiosos para saber de quem era o presunto. No meio do murmurinho uma voz se sobressaiu, seguida de um silêncio constrangedor:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Bem feito! Esfaqueado na rua a essa hora da manhã? Boa coisa não devia ser. Que todos esses vagabundos morram dessa maneira!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bonifácio, que voltava da gráfica com uma tonelada de santinhos para sua campanha de vereador, subiu numa cadeira de metal na porta do bar e aproveitou o momento com eloquência:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É isso que vocês querem pros seus filhos? É assim que vocês querem acordar numa noite qualquer, preocupados com a volta das suas crias? Alguém precisa fazer alguma coisa! Vocês precisam de um representante na câmara para lutar por mais segurança, por mais condições de vida! João, distribua alguns aí pro pessoal! Vou deixar duas caixas de cerveja pagas aqui. Não se esqueçam: na próxima eleição, votem Bonifácio!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aquele discurso cheio de gestos inflamou a claque que ouvia com atenção. Um tanto de gente se amontoou no balcão para lutar por um copo da cerveja recém anunciada e outro tanto discutiu as palavras que tinham acabado de sair da boca do político, enquanto agitavam os santinhos contra o corpo para fazer vento. O calor abafado já tinha espalhado no ar um odor de mortandade. O sangue cheirava a açougue, com a diferença de que era mais ácido e mais forte.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Cocei a barriga e percebi um homem se aproximando com uma bancada montada, cheio de correntes, pulseiras, aneis e vidros de perfume. Ele andava por entre a multidão anunciando os produtos. Parava nas mulheres, tirava alguns exemplares das bijuterias baratas e as experimentava nos pescoços suados que, a essa altura, já tinham esquecido do morto e agora pechinchavam com o ambulante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um pouco pra direita, a baiana que costuma vender acarajé na porta da igreja da matriz já tinha montado a barraca e ateava fogo no carvão para fazer espetinhos. A cerveja já tinha acabado, algumas confusões já tinham se armado e acalmado e o número de pessoas aumentava com o passar do tempo.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ja era alta madrugada e, de súbito, ouvi os batuques do pessoal que subia o morro, voltando de um ensaio na escola de samba. A baiana teve que largar os espetinhos queimando para acudir a porta-bandeiras que caíra numa convulsão estranha. Vai ver era o calor. Vai ver tinha baixado um santo. Não sei. As crianças corriam e gritavam em volta do defunto que permanecia ali, estatelado com o jornal na cara. A polícia ou o IML não tinham dado nem sinal de vida.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando alguém da igreja evangélica começou a pregar a palavra de Deus com ardor e um bíblia levantada, o pessoal foi se dispersando, devagar. Domingo ia ter jogo do Flamengo e, agora, um monte de negras cheirosas passeavam pelas calçadas. Observei a movimentação mais um tempo. O bar fechou, a rua esvaziou e o corpo jazia ali, inerte, esperando alguma ação enquanto seu fedor tomava conta do ambiente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Alguns rapazes largaram os tambores de lado para levar a passista no colo, enquanto outros ajudavam a baiana a desmontar a barraca. Fiz o sinal da cruz, por precaução, e fechei a janela. Era só mais um domingo começando.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;object width="320" height="266" class="BLOGGER-youtube-video" classid="clsid:D27CDB6E-AE6D-11cf-96B8-444553540000" codebase="http://download.macromedia.com/pub/shockwave/cabs/flash/swflash.cab#version=6,0,40,0" data-thumbnail-src="http://0.gvt0.com/vi/xkAGtz8lKDw/0.jpg"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/xkAGtz8lKDw&amp;fs=1&amp;source=uds" /&gt;&lt;param name="bgcolor" value="#FFFFFF" /&gt;&lt;embed width="320" height="266"  src="http://www.youtube.com/v/xkAGtz8lKDw&amp;fs=1&amp;source=uds" type="application/x-shockwave-flash"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-2234803759374523215?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/2234803759374523215/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=2234803759374523215&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/2234803759374523215'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/2234803759374523215'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/10/de-frente-pro-crime.html' title='De frente pro crime'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-5607183425553543410</id><published>2011-09-23T12:13:00.000-07:00</published><updated>2011-09-24T08:51:36.199-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>Getting back to go forward</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"&lt;i&gt;Para continuar caminhando em frente, às vezes é preciso recuar alguns passos.&lt;/i&gt;"&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nunca consegui aceitar muito bem esse dito popular. Na minha cabeça, o progresso é &lt;i&gt;one way only&lt;/i&gt; e, poxa, ter que recuar quando o que se mais quer na vida é chegar a algum ponto nos deixa, no mínimo, frustrados. Ora, como é que eu vou chegar no ponto de ônibus a tempo de embarcar se antes vou ter que fazer um &lt;i&gt;moonwalk&lt;/i&gt;, dar uma rodadinha, e depois continuar? Não faz sentido, né? Mas faz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Me peguei pensando no processo de desenvolvimento de uma borboleta. Sem a licença poética da coisa. Veja: ela nasce livre. Uma larva que pode saracutear pelas folhas e se empamturrar com o que quiser. Sobe, desce, conversa com as irmãs e reza para um pássaro ou outro predador qualquer não escolhê-la pro jantar. A folha é a zona de conforto da nossa amiguinha. Ali ela tem tudo o que precisa para viver: comida e uma relativa proteção. É o cenário perfeito, não é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ok, agora tira o zoom. Existe um mundo inteirinho que rodeia essa folha segura e tentadoramente confortável. Árvores, bancos, chão. Uma imensidão! Uma vastidão desconhecida. Um sem fim de caminhos a seguir, a explorar, a descobrir. Mas, infelizmente, nossa querida larva não pode usufruir desse mundo. Afinal, sua locomoção é péssima, os perigos são enormes e os caminhos muito, muito compridos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Até aí, tudo bem. A vida de todo e qualquer ser vivo tem suas limitações. Pode ser que esse mundão todo realmente não seja feita para a larvinha. Daí que, de repente, ela vê uma linda borboleta azul, brilhante e imponente, rasgar um casulo e voar por toda essa imensidão.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Opa! Peraí! Como ela conseguiu?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Subitamente, a larva percebe que aquela imensidão toda não é, necessariamente, uma coisa impossível de se alcançar. Com as ações certas e as ferramentas adequadas, ela pode, sim, ganhar tudo aquilo que está em volta da sua &lt;i&gt;leaf-town&lt;/i&gt;. E aí a coisa fica complicada. A larva gosta de ser livre. A larva gosta de andar pelas folhas com suas irmãs e comer muito, até rolar. A larva gosta daquela emoção de não saber quando vai ser seu dia de azar, quando pode virar comida de pássaro. Mas, para ganhar suas asas coloridas e 'voar pelos caminhos mais bonitos', ela vai precisar abdicar disso. É um sacrifício necessário para a liberdade. Liberdade? Se isso é a liberdade o que a larva vive nesse momento. Ué. Não é, também, a liberdade? Não. Não mais. Saber que existe o desconhecido e que ele é perfeitamente alcançável tirou o status de liberdade da vida da larvinha. A folha, antes confortável e plena dos recursos necessários para uma vida feliz, tornou-se agente limitador, um pedaço de chão verde e pronto. E as irmãs nem são tão legais assim. Elas já não são interessantes o suficiente para justificar a estadia dela.&amp;nbsp; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Então a larva decide retroceder. Decide se aprisionar. Abdicar de tudo o que sua vida de gordinha fanfarrona gozou até agora. E isso é um retrocesso porque, sabemos, ela já esteve presa em um ovinho antes de nascer. Sabe Deus as transformações que acontecem dentro daquele casulo. Mas aquele momento de isolamento total faz com que a larva cresça de tal maneira que ela desenvolve antenas para sentir melhor o mundo. Ganha pernas para ser mais ágil e permanecer em lugares irregulares e, principalmente, ganhas asas. Lindas e coloridas asas que podem levá-la a lugares nunca antes vistos. Sua aparência mais ostensiva faz o pássaro e todos os outros predadores perderem o apetite. E seu único medo, agora, é que sua vida efêmera não a permita conhecer toda aquela vastidão que agora se abre na sua frente. Ela só não sabe que esse mundo novo oferece novos perigos, novos predadores e faz parte, se a gente tirar ainda mais o zoom, de um universo mais vasto, maravilhoso e inexplorado ainda!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas isso não importa por enquanto. A larva viveu feliz por um tempo. Deu-se conta de que tinha mais coisa lá fora. Teve a coragem de retroceder e sair da sua zona de conforto. Se sacrificou para ir em frente e, convenhamos, isso é um belo exemplo de que para seguir em frente, às vezes é realmente necessário dar uns passos pra trás. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vai saber se o &lt;i&gt;moonwalk &lt;/i&gt;e a rodadinha que eu vou precisar completar não me façam perder este ônibus, mas me permita chegar a tempo de pegar o próximo, mais vazio e com ar condicionado?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pode ser que o leitor esteja pensando que essas linhas aí de cima são muito genéricas e bobas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mas uma das poucas certezas que eu tenho nessa vida é de que nós, seres humanos, estivemos presos antes de nascer, vivemos em uma zona de conforto, fugimos de predadores diversos, descobrimos um mundo cada vez mais vasto e nem sempre alcançável.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ora, já vi essas história antes!&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-5607183425553543410?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/5607183425553543410/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=5607183425553543410&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/5607183425553543410'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/5607183425553543410'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/getting-back-to-go-forward.html' title='Getting back to go forward'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-5350022175303197720</id><published>2011-09-21T07:14:00.000-07:00</published><updated>2011-09-21T07:14:45.810-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Incofessáveis desejos</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;Às vezes, depois de terminar minhas obrigações, gosto de sentar do lado de fora deste café e observar a rua movimentada do centro da cidade. Apesar da estranheza do olhar daqueles poucos que me notam, passo desapercebida, tomando um capuccino lentamente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Do outro lado da rua tem um açougue. Uma 'butique de cortes especiais', segundo as inscrições no toldo. Dentro dela trabalha um homem alto, muito forte e mal humorado. Depois da vitrine com peças penduradas, atrás do balcão de aço, pode-se notar o brutamontes manejar habilmente uma ferramenta. Ele fica a maior parte do tempo ali, naquela mecanica repetitiva e estranhamente sensual. Quase posso sentir a vibração da tábua e o barulho do cutelo separando ossos da carne. Um festival sangrento. Uma sinfonia de morte. Um espetáculo mórbido, cujo maestro exala suor e virilidade. Virilidade: significante do músculo do braço retesado, duro, produzindo o baque que me deixa hipnotizada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Ao lado do açougue tem um escritório de advocacia. O dono é um homem franzino, de óculos redondos, pequenos e andar apressado. Não passa dos quarenta, apesar de a têmpora denunciar a chegada da calvície. Além do terno, anda com uma pasta de couro e sapatos pretos brilhantes, perfeitamente engraxados, impecáveis. Parece ser um homem extremamente metódico e organizado. Sua gravata está sempre apertada, o cabelo – apesar de pouco – sempre penteado e a roupa impecavelmente esticada. Assim que passa pelo açougue, escolhe as partes pintadas de preto do piso geométrico em frente ao escritório, como uma mania, um dogma, uma ordem a ser seguida obrigatoriamente antes de abrir a porta. Ordem: confluência e previsibilidade atordoantes e excitantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Na verdade, gosto de observar os homens em geral. Presto atenção no porte físico, no andar, na rusticidade de seus movimentos, na essência de sua natureza animal. Logo, perdida nos pensamentos, sinto as pernas formigarem, um frio subir pela espinha e a umidade atingir minhas roupas íntimas inundando e aquecendo o sexo por baixo da roupa. Minha mente voa, cria situações das mais diversas e me permitem ter um momento de luxúria, de prazer mundano.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Me imagino sendo possuída de forma abrupta. A roupa tirada com pressa, a calcinha rasgada, a lascívia do beijo e a respiração ofegante. Sinto mãos rústicas apertando minha cintura e meu quadril, meus seios pressionados contra um peito volumoso, sem a mínima chance de escapar. Gosto de pensar na possibilidade da vontade incontrolável ser o elemento principal da pressa em consumar o sexo. Um sexo intenso e, por que não dizer, violento. Daria tudo para sentir uma mão percorrer meu corpo, enlaçar meus pescoço, rodear as auréolas dos meus seios. Daria tudo pra sentir dedos ásperos apertarem minha coxa, minhas nádegas, com uma força quase insuportável. Gosto de me imaginar sendo possuída em um desses becos ermos do centro da cidade, sendo colocada abruptamente de frente para a parede, tendo a saia levantada e a calcinha colocada de lado, para receber um membro grosso e quente como brasa em uma única forte e viril estocada. O sexo urgente, que não pode esperar um lugar reservado. Precisa ser feito ali, naquele lugar, com o desejo queimando qualquer juizo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;E à noite, no escuro de uma cama, sem poder ver nada, sentir desconhecidos disputarem um espaço na minha pele, braços fortes de açougueiros e mãos gentis de advogados, todos juntos, tentando me possuir, lutando por meu corpo como animais sedentos. Poder tocar, poder sentir seus membros pulsantes com as mãos, sugá-los com avidez e depois ser invadida, sem ordem, por todos eles. Ter orgamos indefinidamente contínuos, ser usada como um objeto e depois, largada no leito, percorrer a mão pelo lençol molhado de suor e sêmen. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;Então percebo que já se passou muito tempo, estou mordendo o lábio e segurando a parte interna da coxa com força. A tarde vai caindo e eu preciso voltar, trancar o portão principal do convento, me banhar com água fria e trocar de hábito para a última liturgia do dia.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-5350022175303197720?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/5350022175303197720/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=5350022175303197720&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/5350022175303197720'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/5350022175303197720'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/incofessaveis-desejos.html' title='Incofessáveis desejos'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-695014041666084815</id><published>2011-09-20T11:32:00.000-07:00</published><updated>2011-09-20T11:39:24.894-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O articulista</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;"(...) &lt;i&gt;Enfim, é preciso se doar, passar por cima do orgulho e, acima de tudo, procurar o diálogo para conferir sucesso a uma relação. O amor não atende regras. Ele simplesmente acontece, de maneira personalizada, e depende de nós adotarmos uma postura que assegure seu sucesso. Em outras palavras, amar é se dedicar ao ponto de abdicar da própria individualidade, não pelo outro, mas pela união em si.&amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;Não adianta esperar que as coisas se resolvam por elas mesmas. Tente, consiga! Leve sua relação para outro nível. Invente, inove, evite a rotina, seja criativo! Está dentro de você o segredo para a felicidade!&lt;/i&gt;"&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Depois de ler cuidadosamente cada palavra do artigo que escrevera, anexou o documento no e-mail e mandou para o editor do jornal. Fez umas pesquisas na internet, tentou achar um restaurante de comida japonesa perto de casa e desistiu em seguida. Não estava com fome e, bem, com sorte, teria tempo pra comer no final da noite e provavelmente a maioria dos restaurantes decentes estariam fechados.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Além do mais, comida japonesa estava no cardápio da terça-feira durante todo o tempo que permanecera casado. Invariavelmente, incondicionalmente, terça-feira era dia de comida japonesa. E pronto. O simples pensamento de mudar a rotina o apavorava. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Escrevia para o maior jornal da cidade. Sua famosa coluna saía no caderno de comportamento todas as quartas-feiras e, às sextas, escrevia textos motivacionais e altamente reflexivos em seu blog. Tinha uma legião de leitores fanáticos, que replicavam seus textos na grande rede como se aquilo fosse o santo graal, a chave da plenitude, a resolução de todo e qualquer problema. Isso porque escrevia simplesmente o que as pessoas queriam ler. Soube, em dado momento da vida, que o mundo moderno deixa as pessoas inseguras, confusas, altamente carentes e com auto-estima dilacerada. Colocava uma carga filantrópica no texto, como se detivesse a fórmula de se levar uma vida feliz e plena.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Recolheu a chave do carro, passou a mão na jaqueta pendurada na cadeira e atravessou a redação se despedindo dos colegas, que o cumprimentavam com um olhar admirador e até indulgente, principalmente as mulheres. Ah, as mulheres! Aquelas coisas teoricamente complicadas que precisam de auto-afirmação e de um modo-de-fazer para tudo na vida. Escrevia para as repórteres loiras e gostosas que transitavam nas casas políticas, hipnotizando vereadores e deputados com seus decotes discretos, donas de um poder absoluto mas miseravelmente infelizes por engatar romances com 'porcos machistas' e 'canalhas cretinos'. Mas nunca se esquecia das feinhas donas de consciência avançada que liam jornais, navegavam nas redes sociais e frequentavam os picos da high society, esperando encontrar o príncipe encantado, mister universo cheio de atributos intelectuais quando, convenhamos, iam conseguir, no máximo, um nerd honesto e disposto. Criava um discurso genérico e altamente óbvio, mas fazia seus leitores acreditarem que nunca tinham se deparado com aquelas reflexões. "Como é que eu não pensei nisso antes?". Seu dever era colocar essa pergunta na cabeça das pessoas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de arrancar com o carro, ligou o rádio e pegou a música que marcou o maior romance de sua vida pela metade. Esperou ela terminar, ligou o iPod e seguiu em frente. Sem cinto. Sem olhar nos retrovisores. Sem se importar. Abriu uma goma de mascar, jogou a embalagem pela janela e parou o carro na faixa de pedestres para esperar o semáforo abrir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Quando entrou em casa, topou com um ambiente vazio, quase estéril. Suas malas estavam sistematicamente arrumadas em frente ao sofá de três lugares. O restante das coisas já tinha sido levado pela ex-mulher, exceto o porta-retratos da família em cima de uma estante: pai, mãe e os dois filhos sorrindo com uma felicidade genuína em um domingo ensolarado no parque. Pegou a moldura, olhou para ela por alguns segundos e se lembrou da vida perfeita que teve. Fatalmente, claro, lembrou do que causou seu fim. Numa quarta-feira em que publicou um texto comparando lealdade e fidelidade e sua aplicação no dia-a-dia das megalópoles, foi flagrado pela ex-mulher com sua melhor amiga, na sua própria cama. "&lt;i&gt;Fidelidade não tem que ser esforço. Tem que ser genuína. Quem ama não precisa trair. Não há em nenhum momento essa necessidade&lt;/i&gt;", dizia o texto. E lá estava ele. Na cama da esposa, com a melhor amiga da esposa, praticando aquilo que condenara um dia antes, no texto que escreveu alternando com SMS para a proto-amante, falando sacanagens leves e prometendo um bom vinho e uma boa 'comida'.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Colocou o que pode no carro e dirigiu até o apart hotel onde estava temporariamente instalado. Recebeu até alguns convites para dividir um apê, mas sua alma egoísta não permitia que estranhos ocupassem o mesmo local que ele. Descarregou algumas caixas, acamodou-as com displicência na entrada e saiu de novo. Parou em uma lanchonete, pediu um combo com batata e refrigerante grandes, comeu ali mesmo no carro e seguiu para um bar, onde sentou e bebeu o resto da noite. Estava um caco. Bêbado, sem mulher, miserável, odiado pelos filhos e esquecido pelos amigos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Vomitou no banheiro, pagou a conta e foi pra casa. Precisava começar a preparar o texto que falava sobre alimentação saudável, evitar bebidas alcóolicas e praticar exercícios físicos que ia circular por milhares e milhares de perfis na sexta-feira.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-695014041666084815?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/695014041666084815/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=695014041666084815&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/695014041666084815'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/695014041666084815'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/o-articulista.html' title='O articulista'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-77552953268711314</id><published>2011-09-19T18:33:00.001-07:00</published><updated>2011-09-19T18:33:40.001-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Três Dedos de Poesia'/><title type='text'>Dissonante</title><content type='html'>Sonhei com uma descoberta&lt;br /&gt;Que pode ser a chave para a liberdade.&lt;br /&gt;Preciso manter a mente aberta;&lt;br /&gt;Espalhar por aí toda a verdade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acho que sempre tive a consciência,&lt;br /&gt;Mas esqueço de praticá-la.&lt;br /&gt;Seria ultraje, indecência&lt;br /&gt;Me recusar a seguir essa escala.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fecho as mãos e finalmente percebo&lt;br /&gt;A força que sempre tive:&lt;br /&gt;Seguir minhas ideias, superar o medo;&lt;br /&gt;Lutar e finalmente ser livre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou a voz na escuridão!&lt;br /&gt;O som perdido, esquecido.&lt;br /&gt;Reverberando nos ouvidos da multidão,&lt;br /&gt;Submisso, oprimido, repartido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sou o grito, o escândalo!&lt;br /&gt;Guardado em uma caixa selada.&lt;br /&gt;Guerrilheiro, heroi ou vândalo;&lt;br /&gt;Aprisionado em uma realidade inventada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tenho em mim a força da mudança&lt;br /&gt;Necessária para a revolução!&lt;br /&gt;De repente acordo, na esperança&lt;br /&gt;De voar e dominar a imensidão!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas no abrir da pálpebra cansada,&lt;br /&gt;Antes mesmo da lua se retirar,&lt;br /&gt;Me esqueço da empreitada.&lt;br /&gt;São cinco e meia, é hora de ir trabalhar...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-77552953268711314?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/77552953268711314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=77552953268711314&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/77552953268711314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/77552953268711314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/dissonante.html' title='Dissonante'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-1451185678227495709</id><published>2011-09-09T11:51:00.000-07:00</published><updated>2011-09-09T11:52:08.963-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Crônicas'/><title type='text'>A deslocada</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Poucos momentos da nossa vida nos dão a verdadeira certeza de que não pertencemos a qualquer lugar em que estejamos. Esta é uma história triste, devo alertar. Daquelas que deixam a gente pensando por horas. A nossa personagem principal - sim, é uma "ela" - pode dar um grande aperto no seu coração.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de mais nada, vamos a ela.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela é feia.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ela não é feia. Só não atende os requisitos dos padrões criados pelo mundo contemporâneo, digamos. Redonda em cima, com parte do corpo torta, inapropriadamente torta. É a versão feminina do bonitão da turma, mas nesse caso é ela quem carrega um apêndice. Um incômodo apêndice. Um apêndice, talvez, determinante para sua condição de excluída. Vai saber?! Também não é esguia e charmosamente inclinada, como algumas de suas amigas. Nem tem o cabelo espetado, estiloso, como aquele punk descolado que, muitas vezes, é usado como trunfo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Espera! Estou sendo injusto. Em alguns momentos da História, desde sua criação, ela foi essencial. Determinante. Passeava por aí como uma rainha, importante, bonita e atribuidora de estilo. Quem a escolhesse cuidadosamente, gozava de um sucesso tremendo e agradava todos aqueles que, por algum motivo, admirava o trabalho feito. Nessa época, a maioria da turma tinha peso e importância iguais. Ela não valia menos que os bonitões e, se quer saber, era mais usada que as magricelas tortas. Todos as cobiçavam e tinha até quem torcia para ser escolhido no mesmo período. Os bonitões, todos, rezavam para serem usados por cima dela. Era sua época áurea. Uma época em que as coisas aconteciam por causa dela e não apesar dela. Ela dividia períodos, ideias, canções. Colocava cada coisa em seu lugar com um cuidado e maestria impressionantes. Era ela quem mandava no pedaço.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Acontece que o mundo muda. E com o mundo, mudam muitas outras coisas. Conceitos, parâmetros, valores e preferências. E, foi durante uma dessas mudanças que ela perdeu o reinado. O trono sempre foi e sempre será dela por direito, não tenha dúvidas! Mas as coisas começaram a se simplificar, encurtar. Sua aparência voluptuosa não tinha mais charme. A compressão atingiu todos os níveis da produção em geral e, naturalmente, as magrinhas começaram a ganhar mais espaço. Ninguém gosta de assumir, mas na verdade, a turma toda entrou em decadência. Porque aqueles que os utilizavam frequentemente descobriram outros modos de comunicação e daí, meu amigo, não importa mais se você é "ele", "ela", tem apêndice, é punk descolado ou anda por aí em turma. Todo mundo caiu no mesmo buraco. E, como qualquer coletividade que entra em decadência, aqueles que são visualmente mais agradáveis são mais aclamados. Simples assim!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O advento da internet foi quase como sua sentença de morte. O bonitão e a magricela torta se tornaram os responsáveis por levar os utilizadores aonde eles quisessem. Ela se tornou um estorvo, por exemplo, em um lugar que só permitia 140 caracteres. Todos eles se tornaram. Mas ela, em termos de importância, estava muito longe do bonitão, das magricelas e até mesmo do punk descolado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Hoje, apenas alguns dos utilizadores continuam dando a ela sua importância régia. Mas os lugares onde ela aparece são pouco visitados. Ou ela é simplesmente ignorada. Tornou-se, coitada, sem querer, um fenômeno behaviorista. Tornou-se, ela mesma, parte da psicologia moderna. Sim, apesar de ser lembrada por esses utlizadores cuidadosos, some às vistas dos que a ignoram normalmente. Afinal de contas, à parte a síndrome de Édipo, Elektra e as teorias sexuais Freudianas, a psicanálise já provou que nem sequer chegamos a registrar coisas que nossa mente ignora no dia-a-dia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Minha amiga, a vírgula, ganhou uma homenagem. Espero que ela fique feliz. Fiz isso porque acho que ela está prestes a se matar. A varrer a própria existência das línguas do planeta. Fiz porque tenho um grande apreço por ela e não quero, de maneira nenhuma, que ela logre sucesso nesse comportamento suicida. Fiz porque, talvez, alguém leia essa homenagem e decida começar a utilizá-la, também.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A vírgula, minha amiga, não é qualquer uma. Mas a vírgula, coitada, está em baixa. Foi trocada por sinais mais atraentes. E, sabe, eu até gosto desse jeito gordinho e desajeitado que ela tem!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-1451185678227495709?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/1451185678227495709/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=1451185678227495709&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/1451185678227495709'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/1451185678227495709'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/deslocada.html' title='A deslocada'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-326823579697960990</id><published>2011-09-05T13:20:00.000-07:00</published><updated>2011-09-06T07:30:35.329-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O escritor</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já era tarde da noite. Sentou na frente do computador, bateu a cinza do cigarro no cinzeiro, prestes a transbordar - reflexo de uma mente inquieta e carente de nicotina e um corpo apático e desanimado. Era a terceira vez que tentava escrever naquele dia. Como todas as outras vezes, ficou olhando o cursor piscar por um longo tempo. Procurava, no fundo da mente, a maneira de iniciar aquele texto e só encontrava um grande vazio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ele estava de pé, em um grande e vasto campo, olhando o nada. Não ventava. Não fazia calor. Não havia mosquitos nem animais. Gritou e percebeu que também não tinha barulho. Estava tudo em uma mudez incólume. Era apenas um grande gramado que se unia ao horizonte em todas as direções. O céu estava azul, sem uma única nuvem. Mas não havia sol. Era apenas um tapete azul claro, que se unia ao verde do gramado em algum lugar lá longe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bateu o cigarro no cinzeiro de novo. O cursor do editor de textos continuava na mesma posição. Puxou um trago profundo e soltou a fumaça devagar, para cima, olhando o contorno e as formas que a fumaça ganhava ao alcançar o teto do quarto. A previsão do tempo do rádio que estava ligado na cozinha anunciava uma semana chuvosa e a aproximação de uma frente fria que vinha do sul. Esfregou os pés nus no carpete e bateu o cigarro mais uma vez no cinzeiro. O cursor continuava piscando no mesmo lugar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;De repente um vento frio bateu em suas costas. Virou-se, para ver de onde vinha a corrente, mas continuou sentindo a brisa fria subir pela espinha. Olhou para as nuvens no céu e percebeu que elas iam ganhando um tom mais escuro. Procurou alguma referência naquele vasto campo e não achou nada. Era só um piso verde, que se encontrava, lá longe, com um céu cinzento. Andou de um lado para o outro, olhou para baixo e percebeu que a grama não era de verdade. Era apenas um relvado sintético e perfeitamente sobreposto, folha a folha. Sentiu um ardor na mão esquerda e a balançou, como quem acaba de se queimar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O cigarro tinha chegado no fim e a brasa da ponta estava em contato com seus dedos. Balançou a mão abruptamente e derrubou o cinzeiro cheio no chão, formando uma nuvem de cinzas que se assentou calmamente no carpete. Xingou, maldisse a vida e foi lavar a mão para aliviar a dor da queimadura. Voltou com a mão ainda molhada e a chacoalhou antes de posicionar os dedos sobre o teclado do computador. Algumas gotas se espalharam pelo monitor e uma delas caiu exatamente sobre o cursor que piscava no fundo branco. Fechou os olho, respirou fundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A dor tinha passado e, quando estendeu a mão para ver se estava queimada, sentiu alguns pingos cairem do céu. A chuva caia preguiçosa e esparsa, mal conseguindo molhar sua roupa. Quando alguns dos pingos caiam sobre o chão cinzento, levantava uma pequena nuvem de poeira, que se assentava calmamente. Olhou para o céu azul claro e procurou o ponto de junção com o campo cinza. Firmou a vista, cerrou os olhos e percebeu que uma fina linha separava os dois. Ela piscava em um ritmo entediante.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As tropas americanas tinham invadido algum país do oriente médio. O noticiário do rádio dava conta de milhares de mortes causadas pela explosão de um caminhão bomba na embaixada americana, que ficava ao lado de uma escola. A embaixada veio abaixo e todas as crianças morreram. O analista de conflitos assimétricos modernos dizia que os terroristas estavam cada vez mais sofisticados e bem armados. "&lt;i&gt;Se não fosse pelo petróleo e esse imperialismo idiota, essas crianças não morreriam&lt;/i&gt;", pensou. Lembrou da história de dois irmãos que vira no jornal na semana passada. Eles estavam cavando a sepultura do pai recém assassinado pelas tropas invasoras e acabaram salvos de uma explosão porque, pequenos, de 12 e 14 anos, estavam totalmente dentro da cova no momento da explosão. Tinha decidido que ia escrever sobre esse evento curioso, dar um ar &lt;i&gt;noir &lt;/i&gt;para a história e colocar toda a culpa no governo. Recolheu o cinzeiro do chão e acendeu outro cigarro. O cursor continuava piscando.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Procurou sinais da chuva nas nuvens, mas os pingos já tinham parado de cair. O vento também tinha parado. Ouviu um grande explosão e choro de crianças. Virou-se para ver o que estava acontecendo e viu um prédio demolido, com um filete de fumaça preta saindo do que deveria ser uma janela. De dentro dos escombros jorrava um líquido preto. Aquele esguicho alcançava, facilmente, uns 10 metros. Sentiu a barriga molhada, pensou na chuva de novo, mas a regata branca agora estava manchada de sangue. Mais à frente, ao lado do prédio demolido, havia um buraco retangular e uma pá. Inclinou o corpo para ver o que tinha dentro. Era ele, com 14 anos, deitado de bruços folheando uma revista ilustrada sobre as Grandes Guerras. Estava se divertindo muito com as imagens da revista. Um bombardeiro passou rasante pelo céu cheio de nuvens e soltou alguma coisa, que caía com um páraquedas.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Levantou-se. Tomou um copo d'água e foi deitar. Não tinha o que escrever naquela noite. Desligou o computador e adormeceu ao som da estática do rádio que permanecia ligado na cozinha.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-326823579697960990?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/326823579697960990/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=326823579697960990&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/326823579697960990'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/326823579697960990'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2011/09/o-escritor.html' title='O escritor'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-4855252446872580847</id><published>2010-03-23T10:17:00.000-07:00</published><updated>2010-03-23T10:18:58.224-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>O meu sonho</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Eu tive um sonho. E o sonho era um stop motion feito com pinturas. Por todos os cantos tocava música de Belle &amp;amp; Sebastian. Tudo parecia um quadro, mas as coisas se mexiam. O céu era cor de baunilha. Da cor dos céus de Monet. Não dava pra saber se era dia ou noite, mas havia nuvens espalhadas, com várias formas. Algumas pareciam coelhos, outras pareciam carros e muitas pareciam Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As pessoas eram exatamente iguais às pintadas por Botero. Gordas, alegres, voluptuosas e muito bonitas. Andavam pelas ruas com uma leveza única, e falavam de uma maneira bitnick, como os diálogos de Bukowski, cínicas, debochadas e extremamente interessantes.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava sentado na areia da praia de Ipanema. Era, também, um personagem dos quadros de Botero. Ao meu lado, tinha uma garrafa de whisky, o cão engarrafado. Eu era Vinícius de Moraes, mas me chamava Nicanor. O mar tinha cheiro de saudade e eu ficava observando uma garota passar com os pés na água, de tatuagem no braço e sabia, com uma certeza mais que absoluta, que ela era a minha garota de Ipanema. Ela também tinha saído de um Botero e usava um vestido branco de seda, que dançava conforme o vento batia. Lá no fundo, um golfinho amarelo pulava nas águas e fazia acrobacias. Todas as vezes que ele emergia, eu ouvia uma banda tocar. Diferente do céu de baunilha dos outros lugares, logo acima de mim uma moça dançava entre as estrelas. Era uma bailarina, com roupas de bailarina, fazendo coreografia de bailarina. Mas o que tocava era Belle &amp;amp; Sebastian, valsas e o Bolero de Ravel.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu estava triste porque, apesar de estar ali, três Chico-Buarques andavam pela rua perguntando por onde eu andava e lembravam que eu tinha mãos de jardineiro quando tratava de amor. Tomava o whisky na boca da garrafa e esperava que a garota de Ipanema viesse ao meu encontro, mas o que ela fazia era só andar, molhando os pés no mar. Quando meu desespero se tornou insuportável, fui transportado para um caminho. Uma estrada de terra batida. Nas duas laterais, ipês roxos carregados chacoalhavam com o vento. Eu estava de mãos dados com alguém que não sei quem é e não sentia mais nada ruim. Nem dor, nem medo, nem saudade, nem tristeza. Vestido com um terno de linho azul marinho, com uma rosa vermelha na lapela, eu caminhava na estrada, de mãos dadas com a desconhecida e tinha dentro de mim uma alegria, uma quentura inimaginável. No fim da estrada, jazia um arco-íris que começava num cristal gigante.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu tive um sonho. E ele descrevia o mundo perfeito. Acordei com um gosto de fel na boca. Abri a janela e chequei o céu. Não era mais de baunilha. E não tinha mais bailarina. Era cinza, escuro, feio e opressor. Eu não era mais o Vinícius de Moraes. Nem me chamava Nicanor. Tirei a areia dos pés, dobrei o vestido branco que dançava enquanto o vento batia no varal, tomei água na boca da garrafa e fui trabalhar ouvindo música incidental.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-4855252446872580847?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/4855252446872580847/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=4855252446872580847&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/4855252446872580847'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/4855252446872580847'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2010/03/o-meu-sonho.html' title='O meu sonho'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-594884453448761282</id><published>2010-03-21T04:08:00.000-07:00</published><updated>2011-09-05T11:14:53.637-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Inesquecível</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;&lt;object height="295" width="480"&gt;&lt;param name="movie" value="http://www.youtube.com/v/vDN5rG3wLa4&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowFullScreen" value="true"&gt;&lt;/param&gt;&lt;param name="allowscriptaccess" value="always"&gt;&lt;/param&gt;&lt;embed src="http://www.youtube.com/v/vDN5rG3wLa4&amp;amp;hl=pt_BR&amp;amp;fs=1&amp;amp;rel=0" type="application/x-shockwave-flash" allowscriptaccess="always" allowfullscreen="true" width="480" height="295"&gt;&lt;/embed&gt;&lt;/object&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Na primeira vez que ela apareceu pra mim, achei que era um sonho. Afinal, que tipo de espírito aparece do além pra te lembrar de colocar as roupas no varal? Ou de tirá-las, antes da chuva? Além disso, era tarde da noite, eu tinha algumas doses de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;scotch&lt;/span&gt; na mente e estava naquele limbo característico que fica entre o sono e o despertar. Num daqueles momentos em que estamos acordados demais para nos saber dormindo e dormindo demais para nos saber acordados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Não esquenta. Se um dia eu morrer, olharei por você. Serei seu anjo. Voltarei na forma de uma borboleta, pra colorir os seus dias”, ela dizia. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, tudo aconteceu conforme o planejado. Lembrei de colocar as roupas no varal, tomei o café da manhã dos campeões – uma xícara grande, nicotina – e fui trabalhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca fui uma pessoa de espíritos, e no caminho de volta pra casa, pensava que aquilo era&lt;br /&gt;besteira; uma daquelas saudades bobas que sentimos de alguém que se foi e não voltará nunca mais. Tudo estava do mesmo jeito que deixei ao sair, tirando uma pequena tropa de formigas, que se amontoava na tampa do açucareiro descuidadamente esquecido sobre a mesa. “Bom, ela me disse pra não esquecer das roupas do varal. Não havia nada, na resolução, sobre o açucareiro”, pensei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que lembranças e saudades bobas, por mais bobas que sejam, nos angustiam. E eu bem me lembro dela me esperando chegar do trabalho com um bom jazz tocando no rádio, espalhando seu perfume de lavanda por toda a casa. Jantávamos ao som de Billie Holyday, Miles Davis e, às vezes, dançavamos no carpete da sala, de rosto colado, depois da ceia, ao som de Coltrane. No dia em que ela apareceu pra mim a primeira vez, jantei comida congelada e tomei o vinho preferido dela – um cabernet sauvignon chileno – ao som de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable&lt;/span&gt;, do Nat King cole. Como todos sabem, uma garrafa de vinho pode embriagar uma pessoa, e eu dormi estirado no sofá com o som ligado e a roupa no varal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No meio da noite, olhei para a janela da sala, aberta, e a cortina balançava suavemente. Tinha um cheiro de lavanda no ar. Também tinha barulho de chuva lá fora. Mas era um daqueles momentos em que estamos bêbados demais para discernir fatos da realidade. E eu sinceramente não sei se foi um sonho, porque o CD já tinha acabado há muito, mas era &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable &lt;/span&gt;que tocava enquanto a cortina balançava, a chuva caia e o cheiro de lavanda invadia a casa. E esse foi o segundo dia em que ela apareceu pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No segundo dia em que ela apareceu pra mim, não disse nada. Apenas flutuava na sala, sobre o carpete, balançando suavemente ao som de Nat King Cole. “U&lt;span style="font-style: italic;"&gt;nforgettable, that’s what you are...&lt;/span&gt;”, e ela sorria.  “&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable, though near or far...&lt;/span&gt;”, e ela rodopiava. “&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable, in every way. And forever more, that’s how you’ll stay...&lt;/span&gt;”, a cortina balançava, a chuva caia e a brisa com cheiro de lavanda mexia seu vestido branco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acordei com a cabeça pesada, por causa do vinho. Banho. Café da manhã dos campeões. Uma xícara grande e nicotina. A janela da sala estava fechada e as roupas do varal, secas. Na segunda vez em que ela apareceu pra mim, eu estava bêbado. E eu vi coisas que não aconteceram. Saí de casa com pressa, atrasado. Na volta, refutei qualquer possibilidade dela ter aparecido pra mim. Não havia nada de concreto, e eu já estava cansado de ouvir Nat King Cole.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Chegando em casa, percebi que as roupas não estavam mais no varal. E percebi, também, que a janela estava aberta e a cortina balançava lá dentro. Um som abafado, baixo, vinha da casa. Meu coração disparou, os olhos encheram de lágrima. Abri a porta, trêmulo. Era &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable &lt;/span&gt;que estava tocando. Uma tropa de formigas se amontoava na tampa do açucareiro e, na corrente de ar, que passava pela sala, vinha um leve perfume de lavanda. Eram as roupas, dobradas no sofá, que exalavam o cheiro. O céu estava claro e o sol de verão ainda brilhava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Corri pro banheiro, fugindo de algo inevitável. Olhei no espelho. Só podia ser um sonho. Ví uma cara judiada, com a barba mal feita. Os olhos fundos, olheiras negras. Lavei o rosto e saí. E o mundo caiu em uma tempestade torrencial quando eu coloquei o pé pra fora. Entrei no carro, ensopado. Parei numa banca de flores, comprei um maço de rosas vermelhas com lavandas roxas. No caminho pro cemitério, a chuva forte, o sinal fechado. Eu não vi como aconteceu a batida. Lembro de ter capotado algumas vezes e sentir o sangue na boca. O vermelho das rosas, misturado com o roxo da lavanda, jazia a menos de dois centímetros do meu rosto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A chuva parou, o sol abriu e uma brisa refrescante bateu. Uma borboleta pousou em cima do arranjo. O locutor da rádio anunciou a música que estava começando. Era &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Unforgettable&lt;/span&gt;, do Nat King Cole. Respirei fundo o perfume de lavanda, senti a brisa batendo e sorri para a borboleta. E essa foi a terceira vez que ela apareceu pra mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-594884453448761282?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/594884453448761282/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=594884453448761282&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/594884453448761282'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/594884453448761282'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2010/03/inesquecivel.html' title='Inesquecível'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-2227402845000835371</id><published>2008-03-24T19:50:00.001-07:00</published><updated>2008-03-24T19:55:01.524-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Comprimidos e conhaque*</title><content type='html'>&lt;p&gt;- Nome?&lt;br /&gt;- Malu.&lt;br /&gt;- Malu de quê? Quero o nome completo.&lt;br /&gt;- Maria Lúcia da Silva&lt;br /&gt;- Profissão?&lt;br /&gt;- Puta.&lt;br /&gt;- Como assim, “puta”?&lt;br /&gt;- Puta! Vendo meu corpo por dinheiro. Faço sexo com homens para garantir meu sustento.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Já era noite quando Malu saiu da delegacia. Aquele dia não lhe renderia mais nem um tostão. Estava decidida. Nunca mais ia passar uma madrugada naquelas ruas imundas e infernais da cidade. Disputava espaço com travestis violentos, bêbados valentes e metidos a estupradores, jovens ricos e justiceiros e as colegas de profissão, sempre desleais e traiçoeiras.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Lembrar de todas as vezes que foi espancada, queimada por pontas de cigarro acesas e molhada de urina ou outro dejeto deixava Malu triste e desanimada. Nunca fora outra coisa se não objeto sexual. Não teve opção. Só na adolescência, já sozinha no mundo, foi entender que aceitar doces do pai em troca de silêncio enquanto era violentada também podia ser uma forma de prostituição. Seguiu em frente. Rodou boa parte do país em boléias de caminhão, ao lado de homens barrigudos, fedidos e, como seu pai, violentos. Fazia sexo por comida, por dinheiro, por carona ou simplesmente para não ser morta. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Aliás, já considerava morta a parte do seu corpo que servia de escape para aqueles monstros barbudos que encontrava. Não via serventia para aquele buraco. Na cabeça da jovem Malu, servia apenas para excretar seus restos e servir de abrigo para corpos cansados, inseguros e solitários.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Quando chegou na cidade, depois de depender da bondade condicional de desconhecidos, percebeu que sua vida poderia ser diferente. Firmou ponto em uma das ruas do centro e foi dividir um quarto com mais três mulheres da vida. Uma delas, Raíssa, ensinou à Malu a forma mais fácil de sair da realidade. “Um comprimido de Lexotan e um gole de conhaque! Está aqui a sua passagem para o mundo perfeito! O mundo do seu jeito, com a sua cara!”.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Assim que o cruel assassinato de Raíssa apareceu em todos os noticiários, Malu e suas companheiras decidiram mudar o horário de trabalho. Era mais seguro trabalhar à tarde, diziam. Malu agora dividia o espaço com camelôs, vendedores e os transeuntes que lotam aquela região da cidade todos os dias. Sem preocupação com a polícia e com homens violentos, tudo era mais fácil. Seus clientes barbudos foram substituídos por jovens de terno e gravata, igualmente solitários e inseguros e sua vida se resumia em uma única coisa: garantir a cartela de comprimidos e a garrafa de conhaque, seu passaporte para a felicidade.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Nada de ruim existia no caleidoscópio que aquela mistura criava na cabeça de Malu. Lá, onde era realmente livre, podia voar, amar e rir sem medo. Nada lhe custava e a brisa era morna e suave. Seu corpo moreno e esguio não carregava nenhuma cicatriz. O céu era azul, sem nenhuma nuvem. Visitava o mar sempre que queria e descansava sob a sombra de árvores com frutos saborosos. Ali, sim, a vida de Malu era perfeita. Seus cabelos, castanhos e cacheados, caíam sobre os ombros com leveza. Seu sorriso era alvo e brilhante. Sua gargalhada ecoava nos quatro cantos.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Mas nada dura para sempre. Nem o sonho insano que o comprimido causava. Logo, o céu ficava escuro, uma dor insuportável tomava conta de sua espinha e o despertar era amargo, tinha gosto de fel. Malu precisava levantar, aprontar-se para o trabalho e sair na esperança de ter uma tarde agradável, sem precisar responder às perguntas do delegado:&lt;/p&gt;&lt;p&gt;- Nome?&lt;br /&gt;- Malu&lt;br /&gt;- Malu de quê? Quero o nome completo&lt;br /&gt;- Maria Lúcia da Silva&lt;br /&gt;- Profissão?&lt;br /&gt;- Puta.&lt;/p&gt;&lt;p&gt; &lt;/p&gt;&lt;p&gt;*Texto postado originalmente no blog do projeto &lt;a href="http://nossapandega.wordpress.com/" target="_blank"&gt;Pândega Literária&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-2227402845000835371?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/2227402845000835371/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=2227402845000835371&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/2227402845000835371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/2227402845000835371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2008/03/comprimidos-e-conhaque.html' title='Comprimidos e conhaque*'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-8669006906002878107</id><published>2008-01-22T20:09:00.001-08:00</published><updated>2008-02-05T16:08:55.306-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Um segundo</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Ana Clara tinha cinco anos. Precoce, conseguia ter uma compreensão incomum das coisas que aconteciam ao seu redor. Era linda e tinha cabelos cacheados, amarelos como o sol. Aprendeu a ler aos três anos. E aos três e meio conseguia ler um livro infantil sozinha antes de dormir. Sua história preferida era a da Chapeuzinho Vermelho. Seus olhos eram azuis, azuizinhos como uma piscina. Duas pedras de água marinha que cintilavam contra a luz. Sempre que lia alguma história, fazia, ali mesmo, na cama, uma análise crítica para a mãe. Assustava às vezes, principalmente quando levantava questões ligadas ao âmago do ser. Coisas que nem sua avó conseguia pensar. Tinha a pele alva e seu corpo esguio parecia que ia se quebrar a cada passo que dava. Gostava de roupas simples, de criança, e sua cor preferida era o vermelho.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Se quando morremos a vida inteira passa na nossa cabeça em um único instante, para Ana Clara esse tempo parecia eterno. Não poderia se arrepender das coisas ruins que fez. Afinal, era muito jovem para ter qualquer maldade no coração. Não poderia lamentar as oportunidades perdidas. Muito menos justificar seus erros.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;De que uma menina de cinco anos de idade lembraria em seu último suspiro, então? A Barbie fada que ganhara na semana passada, talvez? Ou quando escreveu o próprio nome no papel pela primeira vez. E a visita ao zoológico? Aquele leão realmente dava a impressão de que a engoliria a cada bocejar!&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Escolheu, em sua inocência, em sua ingenuidade sem igual, pensar na bailarina que rodopiava ao som do porta-jóias da mãe. Quando crescesse, queria ser bailarina. Estava decidida, e não pensava em ser outra coisa se não bailarina. Daquelas que rodopiam ao som de porta-jóias. O frio chegava e fazia tremer todos os ossinhos daquele corpo alvo e delicado. O som do porta-jóias titilava em sua mente. E a imagem da bailarina rodopiando graciosamente, como num plié eterno. E o frio, e a música, e os ossinhos, que poderiam se quebrar a cada passo. A boca do leão era tão grande que a engoliria inteira em uma só mordida. Mas e se o leão fosse também bailarino? E se também dançasse graciosamente, como uma bailarina que roda pliés eternos em um porta-jóias?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Entre tantos pliés de bailarinas e leões dançarinos de bocarras imensas, passou-se finalmente o último segundo. E como o som de qualquer porta-jóias não dura para sempre, a canção foi cessando, foi aumentando o frio que fazia tremer todos os ossinhos daquele corpo de porcelana que poderia quebrar a cada passo, foi embaçando a vista do poste de luz, e foram se misturando lágrimas e gotas da chuva fina que caía.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Ana Clara. Cinco anos de idade. Fatalmente precoce. Ingênua e inocente como jamais se vira. Questionava as complexidades do ser humano, mas, durante seus últimos momentos de vida, só conseguia pensar no som do porta-jóias, na bailarina de pliés eternos e no leão de bocarra imensa. A história que mais gostava era a da Chapeuzinho Vermelho. E era vermelha também sua cor predileta. Alva era sua pele, azuis seus olhos brilhantes, amarelo seu cabelo e negra a noite chuvosa em que tudo aconteceu.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-8669006906002878107?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/8669006906002878107/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=8669006906002878107&amp;isPopup=true' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/8669006906002878107'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/8669006906002878107'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2008/01/um-segundo.html' title='Um segundo'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-513829537556213296</id><published>2008-01-11T15:18:00.001-08:00</published><updated>2008-01-11T15:20:10.064-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>A Promessa</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Cheguei em casa meio tonto, com um gosto de fel na boca. Uma mistura de cerveja, cidra barata e fumaça de fogos de artifício. Aquilo que causou náuseas; o estômago estava embrulhando. Limpei os pés no tapete - como de costume - e entrei. Tudo era o mesmo. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;A casa continuava intacta. A mesma do ano passado. Também, pudera! Fazia apenas algumas horas que tinha saído para curtir a noite de réveillon. Por outro lado era um novo ano. Algo ali precisava mudar. Não na casa em si, na disposição dos móveis ou na cor das paredes. Olhando em volta, sentia um quê de bagunça e era muito difícil discernir se a faxina precisava acontecer dentro ou fora do meu ser.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não passava de duas da manhã. Alguns fogos retardatários insistiam em estourar nos céus, com persistência e intervalo de tempo irritantes. Enquanto mudava de roupa, notei o quadro no centro de uma das paredes da sala. Nunca o abstracionismo fez tanto sentido para mim. Consegui ver toda a minha infame existência naquele conglomerado de amarelos, vermelhos e cáquis. Cada curva, cada mudança de tom me fez relembrar algo na minha vida.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Cheguei mais perto. O verde me fez lembrar a infância, quando corria livre pelas pastagens da fazenda do tio Jerônimo, no interior. Passava todas as minhas férias de verão por lá. Perseguia sagazmente filhotes de ovelha e de quando em vez era também perseguido por cabras furiosas. Sorria muito, chorava manhoso por um agrado ou presente e sempre, sempre estava com algum machucado ou arranhão. Devo ter sido o moleque mais espoleta da terra. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Mas e esse sentimento. Continua. O que será que está faltando?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O vermelho, em uma curva, sobrepondo maioral as outras cores, me lembrou do primeiro encontro com Luiza. Eu tinha uns quinze anos. Ela, uns treze. Foi amor à primeira vista. Naquele momento, em que ela tropeçou no meio da sorveteria e carimbou minha cara com sorvete sabor morango, eu tive a certeza de que ela ia ser minha mulher para o resto da vida. Tomamos muitos outros sorvetes naquelas férias e nas outras que a sucederam. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Se pelo menos pudesse saber o significado desse vazio dentro de mim.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;O primeiro beijo que dei em Luiza aconteceu em um dia ensolarado, debaixo de uma figueira marrom como a reta que cortava abruptamente o quadro na diagonal. Lembro como se tivesse acabado de acontecer. Ela corou e se riu das cócegas que os pelos que começavam a nascer na minha cara faziam. Tinha um sorriso lindo. Criava covinhas em suas bochechas rosadas. Ela ria meio de lado, como quem esconde um segredo. Ria como anjo, sua mãe costumava dizer.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Serão saudades de Luiza? Então por que não aconteceu nos outros anos?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Crescemos, nos formamos e casamos. O vestido de Luiza era longo e branco, como a pincelada geniosa do pintor no canto do quadro. Olhei pro lado e vi aquele par de chinelos azuis. Eles estavam ali nos últimos anos sempre parados, como esperando ela chegar, tirar os sapatos do lado de fora da casa e gritar comigo antes de calçá-los, por conta de meu péssimo modo de pisar com o pé sujo no chão limpo.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Os chinelos eram azuis como a água que levou minha mulher embora dessa vida. E era azul também o tom que mais me chamou a atenção naquele quadro. Me lembro exatamente do dia em que cheguei em casa e todos estavam a minha espera, entreolhavam-se como se sorteassem em uma roleta maldita quem iria me dar a notícia. Meu pai me abraçou e chorou aos soluços. Não entendi nada. Por que aquele clima fúnebre? Onde estava Luiza? Não souberam me explicar muito bem. Um erro de cálculo, a água da piscina, uma convulsão. Luiza morreu. Minha vida ficou negra como parecia ter sido a última pincelada do quadro, com ares de mal acabado, sem um fim &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;definido. Apenas o negrume e a dor. Luiza repousa em paz. E vive em minhas memórias. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Lembrei do vazio incógnito que estava me incomodando. Olhei pela casa: tudo estava intacto. Nada mudou. Era a mesma casa em que Luiza corria saltitando nas manhãs de domingo. Os móveis, a cor das paredes, o chinelo, o quadro. Lembrei do que faltava, e desse vazio que não existia nos últimos anos. Faltou a promessa. A promessa de que ia continuar tentando viver com sua ausência, como fazia todas as viradas de ano. Não prometia ganhar mais dinheiro. Nem perder peso. Muito menos começar um novo projeto. Prometia apenas continuar. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Baixei a cabeça, e antes mesmo da primeira lágrima rolar do meu rosto e atingir o chão, já tinha feito a promessa. Mas prometi, dessa vez, não fazer promessas de ano novo. &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-513829537556213296?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/513829537556213296/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=513829537556213296&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/513829537556213296'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/513829537556213296'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2008/01/promessa.html' title='A Promessa'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-3581841348046363023</id><published>2007-10-16T17:34:00.000-07:00</published><updated>2007-11-05T17:52:58.763-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Matuto'/><title type='text'>Capítulo II - Tiro certeiro.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Lampião conseguiu com certa dificuldade enxergar um rastro de sangue escuro que se estendia da lateral da árvore para atrás dela. Levantou a mão esquerda, ordenando a todos que ficassem imóveis. Olhou-os um por um, tentando identificar os faltantes. Deu falta apenas de um, mas na verdade os ausentes eram dois: Faltavam Matuto e Coqueiro. Os pertences do primeiro repousavam-se próximos à fogueira extinta. Nem traço do segundo. O tiro, que parecia ter ecoado por todo o sertão, causara alarde não só nos homens, mas também nos animais. Os cavalos estavam irrequietos, agitados, embolando as cordas que os prendiam. Quase dava pra sentir o cabresto machucar suas bocas. Uma grande nuvem preta tapou por alguns instantes a luminosidade da lua. Com seus rifles apontados, Lampião e Corisco seguiram devagar a marca no chão. Atrás deles os outros homens, todos dispostos a disparar contra qualquer coisa que se movesse naquela escuridão pungente. O ar estava pesado e tinha um odor de mortandade, odor esse que se alastrava rapidamente pelo calor do sertão sempre que sangue era derramado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com os ouvidos, Matuto localizou exatamente onde estava sua vítima. Pôde deduzir, inclusive, sua altura e seu peso através do barulho que fazia. De uma só vez, saiu de trás da árvore e disparou. O tiro foi certeiro e fatal. Matuto, silente e discreto como sempre o fora. Cerrou os olhos na escuridão para ver se aquele corpo que jazia inerte estava realmente morto. Assim que a fumaça e o odor da pólvora se dissiparam, Matuto sentiu o cheiro de sangue e mortandade no ar pesado, que sempre se alastrava rapidamente pelo calor do sertão quando havia um assassinato. E, com muita dificuldade, transportou o corpo pesado para mais longe, deixando um rastro de sangue escuro que mal dava pra ser visto na escuridão da noite. Agachou sobre o corpo e fez o sinal da cruz, iniciando uma oração em silêncio. Retirou o facão da bainha com calma e viu o reflexo da lua sumir na lâmina, sendo encoberta por uma grande nuvem negra. Fechou os olhos, respirou fundo e começou a retirar o couro de sua vítima de forma destra e vagarosa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lampião e Corisco sobressaltaram-se ao ver aquele homem sem camisa sobre um corpo, mutilando sua pele, arrancando uma nesga de aproximadamente dez por dez centímetros. Quando chegaram mais perto da estranha cena, observaram a vítima sob Matuto, que estava ofegante e com as mãos cobertas de sangue. Era um bezerro, malhado, de porte mediano e corpulento, um modelo totalmente atípico para os padrões dos bezerros nordestinos, que geralmente eram subnutridos e pequenos. Sobre a mutilação, Lampião não estranhava mais. Todas as vítimas que o compadre fazia nas batalhas e que não eram levadas para longe, tinham um pedaço de seu couro arrancado. Era como um troféu. Matuto dizia que um dia ia costurar uma colcha de retalhos, feita somente de pele de seus inimigos. Enquanto isso não acontecia, curtia as peles no sol dos dias e as guardava na algibeira de seu uniforme. Dos homens, preferia tirar a pele do lombo, das mulheres costumava rasgar os seios e dos animais sempre separava uma parte do couro que recobre as costelas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bezerro estava caído, um tiro atravessara toda a cabeça, vazando os dois olhos com uma precisão quase cirúrgica. Estava claro que a morte tinha sido instantânea e que, provavelmente, Matuto sentira uma ameaça com a aproximação do animal. Terminada a retalhadura do novilho, Matuto guardou o couro no bolso, lavou as mãos com água da cabaça e se aproximou de Lampião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Pede os homi tirá um pedaço pra mode nóis comê e levá o resto pra dividí com o povo necessitado da cidade assim que o dia clareá, cumpadi.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Precisa deixá um pedaço pra servi pro carcará. Logo ele chega pra disputá a carne com os abutre. – Exigiu Lampião.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá feito. – Matuto virou as costas e voltou para o acampamento, tão quieto quanto passara o dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pouco tempo depois do início do crepúsculo, um sibilar de cascos de cavalo podia ser ouvido de longe. Os momentos que passaram durante a noite, no episódio do bezerro morto, foram cansativos e deixaram todos ressabiados. Dessa vez quem era esperado finalmente chegou. Lampião abriu um sorriso quando avistou Sabino em cima de seu cavalo. O homem apeou-se, abraçou longamente o chefe e admirou a cena que o envolvia. Há muito não via um exército de sertanejos, prontos, sempre prontos para o que der e vier.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Comé que tá, meu patrão?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Arre, Sabino! Pensei que tu num ia nunca chegá, mode que nós já estava de saída.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Não cumpadi. Eu sempre chego. E já to doido pra rasgar um bucho de macaco!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Se aquete, homi. Nós precisa decidí o que fazê primeiro. Matuto! Corisco! – O chefe queria reunir a cúpula ali mesmo, já para decidir qual direção tomar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os dois se aproximaram devagar. Sentiam certo respeito por Sabino, por quem Lampião tinha consideração de irmão. A própria figura do cangaceiro era distinta e imponente. Andava com a roupa impecável, as armas limpas com esmero e o chapéu alinhado. Nunca falava alto e suas ordens, por mais ríspidas que fossem, pareciam um pedido de um ente querido em extrema necessidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sabino era valente e inteligente. Sagaz. Lampião se valia disso para montar todas as estratégias das invasões. Sua perspicácia espalhara fama de matador e ele foi um dos grandes responsáveis pelo sucesso que faziam no nordeste. Seu nome estava envolvido em quase todas as lendas que existiam a respeito do bando, como a história que se contava de quando, devido à estratégia de Sabino, três cangaceiros enfrentaram uma volante com mais de cento e cinqüenta homens e mataram todos, sem nenhum arranhão. Na verdade, Lampião gostava de fazer saberem de suas companhias, que em geral aterrorizavam o povo mais do que sua própria figura.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto cinco homens subiram o morro anunciando o sucesso da partilha do novilho na cidade, os três comandantes definiam o que fazer dali em diante. Precisavam atravessar o estado até chegarem em Mossoró, mas não podiam passar pelos grandes centros. Já corria à boca solta que o bando era numeroso e perigoso e todas as centrais policiais já estavam em alerta, além das rondas das volantes - espécie de milícias civis chefiadas por militares e mantidas pelo governo – que percorriam todo o nordeste em busca de um homem do cangaço. O grupo precisava correr pelas zonas periféricas para chegar são nas redondezas de Mossoró e encontrar com Massilon e seu exército com saúde e disposição. Corisco arriscou um palpite:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Nós pode ir até Natal beirando a serra. Macaco nenhum vai ver nós. E o Coqueiro já labutou pra uns coroné lá em Mossoró, pode ajudá nós a chegá nos arredor sem perigo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá feito. – Respondeu Lampião, com a anuência de Sabino e Matuto. – Manda chamar Coqueiro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um homem se destacou prontamente para procurar o tal homem de alcunha "Coqueiro". Não achou ninguém.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Chefe, não tem nenhum Coqueiro no meio de nós, não!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Tá doido, cabra? Onde bobonica ta o homi, então? - Outro homem, de nome "Trovão" conhecia bem as redondezas de Mossoró e se prontificou a ajudar a guiar enquanto o outro não aparecia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesse momento, José Cesário, conhecido no meio dos homens do cangaço como “Coqueiro”, estava recebendo a quantia de vinte mil réis por uma informação preciosa dada ao chefe de uma das volantes mais perigosas do sertão, que prontamente se dirigiu a Mossoró para alertar o prefeito e os cidadãos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Lampião e seu bando continuaram viagem na direção da cidade de Luís Gomes. Três dias depois, quando chegaram, se depararam com um pequeno grupo de guerrilheiros com a custódia de Coqueiro, tido como refém. Os algozes pediam que o grupo recuasse em troca da vida do cangaceiro. Todos os homens do bando se entrincheiraram e um pequeno grupo liderado por Matuto saiu nas divisas da cidade na esperança de pegar os inimigos desprevenidos, pelas costas. Dois dias de cercos e ameaças se passaram e, às duas horas da tarde, com o sol a pino e a fome batendo forte, o primeiro tiro foi disparado. O homem que se dizia líder do grupo inimigo caiu com um tiro certeiro cravado na nuca. Pela perícia do ataque, Lampião sabia que a tentativa de Matuto tinha sido bem sucedida. Mais um combate estava começando sem previsão de término. Lampião e seus homens estavam em absoluta maioria, mas não se podia saber por quanto tempo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Era fim do mês de maio.&lt;br /&gt;(Continua...)&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-3581841348046363023?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/3581841348046363023/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=3581841348046363023&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/3581841348046363023'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/3581841348046363023'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2007/10/tiro-certeiro.html' title='Capítulo II - Tiro certeiro.'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-8571105518389072168</id><published>2007-10-08T20:16:00.000-07:00</published><updated>2007-11-05T17:52:34.725-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Matuto'/><title type='text'>Capítulo I - Coisa de homem matuto, coisa de homem ruim.</title><content type='html'>&lt;p align="justify"&gt;Diziam ser Horácio José da Silva, vulgo Matuto, um dos cangaceiros mais temidos e respeitados do bando de Lampião. Fulgurava no alto escalão do grupo ao lado de outros soldados como Corisco, o Diabo Louro.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Em certa dada Matuto, Corisco, Lampião e Maria Bonita, acompanhados de mais quinze ou vinte homens do bando atravessaram o deserto semi-árido do sertão a caminho de Mossoró, no Rio Grande do Norte. Iriam saquear a cidade, que estava crescendo vertiginosamente nos últimos tempos. Com seus parques salineiros e firmas comprando e prensando algodão, Mossoró poderia render um bom dinheiro ao bando, que tinha uma estratégia bem conhecida. Seqüestrariam uma figura notável de uma cidade vizinha e pediriam resgate mais uma grande quantia de dinheiro para não realizarem a invasão. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Pararam em uma pequena propriedade e apearam-se dos cavalos. Enquanto Maria Bonita foi reabastecer as cabaças de água, os generais sentaram confortavelmente debaixo de um jacarandá para descansar do calor. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Matuto observou alguns homens levarem os cavalos para também beberem água em um manancial quase seco ali perto. Estava com o olhar perdido e semblante preocupado. Seus olhos negros não se moveram com os homens. Ficou ali, fitando algo no vazio da seca. Gotas de suor desciam de sua espessa e lisa cabeleira. O calor era acentuado e o sol do meio-dia durava quase o dia todo. Quase se podia ouvir o solo trincolejar, como fazia a madeira nas fogueiras noturnas. Lampião olhou para Matuto que não pronunciara uma palavra sequer desde a entrada no estado do Rio Grande do Norte, depois de ter cortado fora a cabeça de um sertanejo que resistira ao ataque, na divisa com a Paraíba. Preocupado chegou mais perto. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;- O que é que há, compadre?&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Sei não, compadre. To sentindo uma coisa estranha.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Tá doente, Matuto? Pode ficar doente não. Nós precisa pegar os presentes do povo em Mossoró e voltar.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Tô doente não, compadre.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- O que é que há, então, Matuto? O cabra que sente coisa estranha e não tá doente não é cabra macho.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Sei não. Sei não. Acho que tô preocupado. - Matuto mudou o olhar de direção e sentiu uma brisa fresca gelar o suor que brotava de seu rosto. Uma brisa que parecia prenunciar uma desgraça.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Credito nisso não, compadre. – Contestou Lampião – O cabra precisa ter força e colocar a fé no Padim Padre Ciço. Cangaceiro não se preocupa com nada. Cangaceiro não teme é nada.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Essa noite sonhei com cobra, compadre.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Sonhar com cobra é traição. – Interrompeu Maria Bonita em tom quase catedrático enquanto trazia as cabaças de água cheias e algumas frutas.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;- Traição que nada, mulher. &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enquanto Lampião e Maria Bonita discutiam se sonhos tinham ou não significado, Matuto passou a observar a relva baixa balançar com um vento quase imperceptível. Estava sentindo a mesma coisa que sentira no episódio da casa grande, na fazenda em que se criara em Caruaru. Naquele dia, em seu aniversário de dezoito anos, aprendera a ler os presságios no comportamento na natureza quase morta do sertão da pior forma possível. Estava acontecendo de novo. O cenho franzido involuntariamente fazia os nervos se tensionarem e o sangue ferver.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Aquela era a última parada antes do início da invasão do Rio Grande do Norte. Dali em diante atacariam os vilarejos em busca de “presentes” até chegarem em Mossoró, já bem estabelecidos. O bando não estava completo. Faltava uma falange, que vinha do Ceará chefiada por Massilon, outro capitão do cangaço. Lampião marcara de se encontrar com Massilon nos arredores de Mossoró para prepararem a última investida. Estavam ali esperando apenas mais um soldado, do apreço do chefe, que vinha em disparada há dias para encontrar com seus pares, direto da Bahia. Era Sabino, grande estrategista e homem da confiança de Lampião.&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À noite, acampados em volta de um punhado de brasa, o único som que se podia ouvir era dos grilos, embalando o sono daqueles homens ruins e malvados com uma canção de ninar repetitiva e incansável. Matuto, que não conseguia dormir, olhava as estrelas com os sentidos em alerta e respiração rápida e pesada. Ouviu, de repente, um chacoalhar de folhas perto da árvore onde sentara mais cedo. Colocou a mão na carabina que estava pousada a sua direita e se preparou para levantar, silente e discreto, como sempre o fora. Andou na direção da árvore, as parcatas sem fazer o mínimo ruído, sabendo exatamente de onde vinha o barulho de folha seca amassada. Sentia o cheiro da brisa fresca invadir o corpo. Recostou-se na árvore e preparou o ataque. Seria certeiro e fatal. Segundos depois, todos os homens do bando estavam de pé e em alerta, com as armas apontadas para o local de onde veio o tiro.&lt;br /&gt;(Continua...)&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-8571105518389072168?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/8571105518389072168/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=8571105518389072168&amp;isPopup=true' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/8571105518389072168'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/8571105518389072168'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2007/10/diziam-ser-horcio-jos-da-silva-vulgo_08.html' title='Capítulo I - Coisa de homem matuto, coisa de homem ruim.'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-966233149753229583</id><published>2007-10-08T10:33:00.000-07:00</published><updated>2007-10-08T10:36:40.008-07:00</updated><title type='text'>As aventuras do Matuto</title><content type='html'>Vou começar a escrever aqui uma série de contos que vai narrar algumas das ações de Horácio José Da Silva, meu bisavô.&lt;br /&gt;Conhecido como Matuto, era cangaceiro de Lampião e homem de confiança do Virgulino.&lt;br /&gt;Estou quase terminando o primeiro. Em breve postarei.&lt;br /&gt;Espero que gostem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Abraço.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-966233149753229583?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/966233149753229583/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=966233149753229583&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/966233149753229583'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/966233149753229583'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2007/10/as-aventuras-do-matuto.html' title='As aventuras do Matuto'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-2278795225061261857.post-1721225885417775390</id><published>2007-10-04T12:44:00.000-07:00</published><updated>2007-10-12T21:13:45.569-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Contos'/><title type='text'>Bicho Homem</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Se serviu de mais uma dose daquela bebida amarelada, doce no começo mas amarga na boca depois da ingestão. Sentiu os órgãos internos queimarem gradativamente, conforme o líquido ia passando. Primeiro a garganta, e então o esôfago, depois o estômago. Era a "cavalar", diziam. &lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Refletiu sobre a origem daquele destilado. Ninguém o sabia. Chegava em garrafas pequenas, a cada dois meses. Um homem conhecido apenas por Chicão as trazia. A bebida era disputadíssima pelos ébrios habituais que freqüentavam aquele botequim escuro situado em uma rua erma da cidade.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Pediu mais uma dose da bebida e apoiou os cotovelos no balcão de madeira carcomida por cupins. Escondeu o rosto nas mãos por alguns segundos, coçou a barba por fazer e olhou para o copo, servido de uma nova dose da "cavalar". Não sabia bem como fora parar ali, nem como conhecera aquela estranha bebida. Lembrava-se apenas de ter saído sem rumo, após um dia cheio de contratempos.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Junto com a origem da bebida, começou a tentar identificar também a origem dos problemas, dos sentimentos e entrou em um mundo de metafísica; "Coisa de bêbado", pensou. No desespero, os porquês da vida começam a ficar sem sentido, fazendo parecer absurdo o simples fato de questionar qualquer coisa. Nem chorar, nem gritar, nem fazer alarde. Beber apenas era o suficiente, para esquecer da realidade pungente. Naquele líquido dourado, que agora já brilhava no copo sujo, estava a chave para o esquecimento dos problemas.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Olhou em volta, procurando algum pai de família. Viu apenas homens com aparência cansada e derrotada, daqueles que vemos na sarjeta de uma rua qualquer caído às seis da manhã. Cada um com seus incômodos, cada um com suas derrotas. Sorveu mais um copo, de uma só vez. &lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;- Cigarros. Você tem cigarros?&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;- Qual marca?&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;- Qualquer uma. Fósforos também.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;- Aqui está.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;- Me bota mais uma dose da cavalar.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Acendeu o cigarro somente depois de olhar em volta e ter certeza de que não havia ninguém conhecido no recinto. Acendeu de modo clássico, como somente um galã de cinema da época que era um jovem apaixonado o faria. Lembrou dessa época de forma terna e nostálgica e pensou como o curso das coisas mudou desde então. Namorava, pretendia se casar. Saía, ia para as festas de &lt;i&gt;rockabilly&lt;/i&gt; vestido no melhor estilo &lt;i&gt;Jerry Lee Lewis&lt;/i&gt;. Dirigia &lt;i&gt;dodges&lt;/i&gt; e &lt;i&gt;fords&lt;/i&gt; possantes. Riu-se das lembranças, essas entrecortadas por tragadas profundas que produziam muita fumaça, ou pelo menos parecia quando passava em frente a uma lâmpada acesa.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Flagrou-se com os olhos marejados e tratou logo de voltar à realidade. Homem. Bicho homem. O que faz um homem dedicar sua vida a outros da forma que o fazia se não o divino? Aqueles que não merecem, aqueles pecadores, aqueles ímpios que só o procuravam nas adversidades. Gente mal agradecida. Não reconhecia as coisas que Deus fazia a elas. Homem. Bicho homem. Filho da puta do bicho homem.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Percebeu então que de certo modo tinha o mesmo papel da "cavalar". Era raro, sem procedência, mas auxiliava as pessoas trazendo cura e conforto espiritual.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;Bêbado de verdade, olhou pela janela e viu que o dia estava amanhecendo. Jogou o dinheiro no balcão e saiu. Precisava ir embora. Precisava passar a batina e fazer a barba para celebrar a missa que se iniciaria às sete.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/2278795225061261857-1721225885417775390?l=tresdedosdeprosa.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/feeds/1721225885417775390/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=2278795225061261857&amp;postID=1721225885417775390&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/1721225885417775390'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/2278795225061261857/posts/default/1721225885417775390'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://tresdedosdeprosa.blogspot.com/2007/10/bicho-homem.html' title='Bicho Homem'/><author><name>Vinícius Peixoto</name><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry></feed>
